quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Feito do mesmo barro - A humanidade segundo José Saramago – Por Mariana Ianelli




por Mariana Ianelli *
publicado em 8/12/2009.

Há muito tempo não se via um lançamento despertar tanta polêmica, sobretudo de ordem extraliterária. É assim que Saramago assiste à repercussão do seu novo livro, Caim, cuja controvérsia lembra os efeitos provocados por seu Evangelho segundo Jesus Cristo, dezoito anos atrás. Na época, a resposta do governo português foi a interdição da candidatura do escritor ao Prêmio Literário Europeu. Agora, com o surgimento de Caim, as reações novamente se inflamam, chegando ao disparate de um eurodeputado exortar Saramago à renúncia de sua cidadania. Às declarações políticas, somam-se as admoestações religiosas, que são muitas e talvez mais interessantes.

Se antes o autor se detivera no Novo Testamento para escrever seu Evangelho, agora sua atenção se volta ao princípio dos tempos, em uma jornada do pensamento e, por que não dizer do espírito, por algumas das mais célebres passagens do Antigo Testamento. É a figura estigmatizada de Caim que protagoniza essa história, na qual Saramago mescla episódios de diferentes tempos bíblicos sob a perspectiva de diferentes presentes no tempo da narrativa. Em cada um desses "presentes", visitados pelo personagem em seu destino errante, uma "vítima de deus" se apresenta, seja no sacrifício de Isaac, no sofrimento de Jó ou na destruição de Sodoma.

Saramago se propõe a ler a Bíblia à letra, daí a censura que os católicos lhe fazem: desconsiderar uma leitura simbólica. Quantas sejam as interpretações possíveis, para o autor de Caim interessa que o texto bíblico, tal como está escrito, não seja suprimido ou mascarado. Em conversa com o teólogo José Tolentino Mendonça, em outubro deste ano, na ilha de Lanzarote, o escritor chegou a afirmar que, ao menos no seu "estado de espírito presente", considera este recente trabalho o seu melhor livro. Tolentino, porém, acredita que a narrativa não possui a complexidade de seus outros romances. Entre um extremo e outro, vale ressaltar a prodigiosa fluidez e o humor que há nas páginas de Caim.

Grafado em letras minúsculas, como todos os personagens do romance, deus aparece na narrativa feito do mesmo barro da sua criatura, à imagem e semelhança dos homens. Vaidoso, irônico, temperamental, faz que governa o mundo mas quase sempre está ausente, é um deus que se equivoca, que promete e não cumpre, que promove acordos tácitos e, quando se trata da disputa de poder, não hesita em pôr seus filhos à prova. Por meio deste personagem muitas vezes jocoso, absurdo, repleto de vícios mundanos, Saramago, valendo-se da mordacidade que lhe é peculiar, coloca em ação seu testemunho da violência, do terrorismo fundamentalista, da hipocrisia humana. Quanto aos mistérios da fé e aos desígnios do coração, neles o escritor não toca, nem é para isto que se lhe dá a palavra: "o inefável, como sabemos, é precisamente o que está para lá de qualquer possibilidade de expressão".

É, pois, com este deus de tantos caprichos e impulsos que Caim divide a culpa pela morte de seu irmão Abel. Culpado Caim por ter escolhido matar, culpado deus por ter preferido um filho a outro. Começa aí a odisseia do protagonista, vítima do menosprezo divino, condenado a vagar indefinidamente pela terra, ao longo da história do passado e do futuro, em meio a "batalhas de uma guerra infinita" em que o sangue de Abel se perde no sangue de centenas de milhares de vítimas. Caim serve ao exército de Josué, trabalha nas propriedades de Jó, acompanha Abraão e os anjos do senhor até Sodoma, e em cada um desses episódios bíblicos vê multiplicarem-se as mortes, as súplicas, o saldo da humilhação e da injustiça.

Saramago transplanta o filho fratricida de Adão e Eva para gerações pós-diluvianas, e a humanidade que se devia supor renovada, limpa da crueldade da descendência de Caim, ao contrário, revela-se igualmente sanguinária. Por tudo o que vê nessas incursões pelo "presente-futuro", o protagonista vai nutrindo seu pessimismo e sua revolta: "Alegria, perguntou a si mesmo, para caim nunca haverá alegria, caim é o que matou o irmão, caim é o que nasceu para ver o inenarrável, caim é o que odeia deus".

Entre idas e vindas no tempo, já cansado das "costumadas destruições e dos costumadíssimos incêndios", Caim retorna à terra de Enoch e tem-se aí o capítulo mais belo do livro. Permutando os mitos pela Bíblia, o autor encena, no reencontro dos amantes Lilith e Caim, o reencontro de Penélope e Ulisses. Os movimentos sucedem-se como num jogo de espelhos. Vale a pena citá-los aqui, lado a lado: "(...) depois que Ulisses e Penélope satisfizeram o seu desejo/ de amor, deleitaram-se com palavras, contando tudo um ao outro. / (...) / Ele começou por contar como primeiro venceu os Cícones / e chegou depois à terra fértil dos Lotófagos. / Também tudo o que fez o Ciclope (...)" (Odisseia, Canto XXIII). Em Caim: "Tranquilizados os espíritos, compensados da longa separação dos corpos com juros altíssimos, chegou o momento de pôr o passado em ordem. (...) Então caim contou a lilith o caso de um homem chamado abraão a quem o senhor ordenara que lhe sacrificasse o próprio filho, depois o de uma grande torre com a qual os homens queriam chegar ao céu (...)".

O ar de gravidade que uma releitura do Antigo Testamento poderia implicar, Saramago subverte-o pelo humor, ou ainda, com um sarcasmo que rompe toda espécie de servilismo diante dos limites do sofrimento humano. Na voz da mulher de Jó, o escritor ataca: "o mais certo é que satã não seja mais que um instrumento do senhor, o encarregado de levar a cabo os trabalhos sujos que deus não pode assinar com seu nome". Também beiram a caricatura as aparições do senhor na terra, com cetro em punho "como um cacete", ou "em fato de trabalho", manifestando-se "em meio de um trovão ensurdecedor e dos correspondentes relâmpagos pirotécnicos". Impossível evitar o riso no episódio da construção da Arca de Noé, quando Caim aponta um erro nos cálculos de deus usando o princípio de Arquimedes.

Fim da viagem pela história dos tempos, no dilúvio se dá a grande revanche de Caim. Não podendo matar a deus, o filho desprezado, como antes assassinou Abel por despeito, agora boicota o projeto de uma nova humanidade. Aquele que havia sido o senhor das guerras, o causador de tantas vítimas, é ele mesmo vitimado, condenado ao abandono, um criador sem criatura que lhe obedeça ou o glorifique, em outras palavras, um deus destituído da violência que os homens costumam imputar à sua vontade.

"Ninguém percebe que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino?", questionava Saramago, três anos atrás, em entrevista ao jornalista Edney Silvestre. Esta mesma pergunta continua soando, irrequieta, nas páginas de Caim. Ateu convicto e, no entanto, constantemente aferrado à ideia de Deus, Saramago admite ter como uma de suas grandes influências o padre Antonio Vieira, cujo Sermão da Quinta Quarta-Feira da Quaresma bem poderia ter lhe servido de centelha para o Ensaio sobre a cegueira. Sob esse aspecto, o cenário cataclísmico desse romance mostra do que é capaz a espécie humana finalmente livre do imperativo do Decálogo. O próprio escritor, que se diz "empapado de valores cristãos", assegura que "para fazer um ateu como ele, é necessário um alto grau de religiosidade". Mas, à parte as vinculações e desavenças do escritor com a religião, que acendem aqui e ali a fogueira dos debates, por vezes ofuscando a própria literatura, cabe pensar no homem, e no entorno que ele modifica à sua passagem, a partir da obra de Saramago.

Outra questão que mereceria um olhar mais aprofundado, tanto da crítica, como do público leitor, consiste não apenas na vasta incidência de temas bíblicos na literatura moderna e contemporânea, mas, em especial, na reincidência da figura de Caim, agora com o relançamento de O Deus de Caim, de Guilherme Dicke, pela editora Letra Selvagem, e As vozes do sótão (ed. Cosac&Naify), de Paulo Rodrigues, que também traz à tona as memórias de um personagem enjeitado, oprimido, moralmente devastado pela falta de amor. Que esse fenômeno propicie uma reflexão sobre o contexto em que tais livros aparecem, hoje, à cena literária, para se avaliar mais suas "significações terrestres" do que suas implicações teológicas. Assim, é provável que a discussão suscitada por Caim, de Saramago, inverta a contento o pressuposto da "provocação pela provocação" e comece a ser considerada sob aquela outra perspectiva que o escritor já assinalava em A viagem do elefante, seu romance anterior: "Quem diria que a moral nem sempre é o que parece e que pode ser moral tanto mais efetiva quanto mais contrária a si mesma se manifeste".

Mariana Ianelli


Sobre a Autora
Mariana Ianelli nasceu em 1979 na cidade de São Paulo. Jornalista e mestre em Literatura e Crítica Literária, Mariana é autora dos livros Trajetória de antes (1999), Duas Chagas (2001), Passagens (2003), Fazer Silêncio (2005) e Almádena (2007), todos pela editora Iluminuras. Como resenhista, colabora atualmente para os Jornais
O Globo – Prosa&Verso (RJ) e Rascunho (PR).

Matéria extraída do Site “Verdes Trigos” – clique aqui para conferir

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Entenda as principais diferenças entre o catolicismo e as religiões evangélicas

O texano Kenneth Hagin, nascido em 1917, era uma criança doente. Desde os 9 anos, ficou confinado na casa do avô. Aos 16, desenganado pelos médicos, infeliz e preso a uma cama, tinha poucas esperanças de ver sua vida melhorar. Um ano depois, em agosto de 1934, Hagin teve uma revelação. Ele compreendeu de repente o significado de um versículo do Evangelho de São Marcos. A passagem do Novo Testamento dizia: "Tudo quanto em oração pedires, credes que recebeste, e será assim convosco". Hagin então ergueu as mãos para o céu e agradeceu a Deus pela cura, mesmo sem ver sinal de melhora. Então levantou-se da cama. Estava curado.

A mensagem, que Hagin popularizou por meio de mais de 100 livros, é clara: Deus é capaz de dar o que o fiel desejar. Basta ter fé e acreditar que as próprias palavras têm poder. Sendo assim, para os verdadeiros devotos, nunca faltará dinheiro ou saúde. Essa doutrina ficou conhecida como "teologia da prosperidade". A crença foi incorporada anos depois por várias igrejas. Ela é central no mais impressionante fenômeno religioso do Brasil contemporâneo: a explosão evangélica.

No começo, essa explosão se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. No primeiro dia de 2004, a Igreja Pentecostal Deus é Amor inaugurou no coração de São Paulo o seu novo templo. A obra tem tamanho de shopping center, arquitetura de gosto duvidoso e comporta 22 mil pessoas sentadas.

É cinco vezes maior que a católica Catedral da Sé, lá perto.

Há meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos 20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: de 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população brasileira. Em algumas cidades, foram criados vagões de trem exclusivos para crentes, em que as pessoas podem viajar ouvindo pregações bíblicas. Em outras, não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes. Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.

Um terreninho do Céu

Evangélicos, é importante esclarecer, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são sinônimas. Ou seja, evangélicas são praticamente todas as correntes nascidas do racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517 (veja infográfico na página 54). O alemão estava especialmente chateado com o comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores imobiliários do céu, comercializando indulgências - vagas no Paraíso para quem pagasse.

Lutero abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do Ocidente. A ele se seguiram outros. Na Inglaterra, o rei Henrique VIII criou sua própria dissidência do catolicismo - depois batizada de anglicanismo - só porque o papa não queria que ele se divorciasse e casasse de novo. Na Suíça, Ulrico Zwinglio e João Calvino aprofundaram as reformas de Lutero. Zwinglio pregava o princípio que fundamentaria todo o movimento: o cristão deve seguir apenas a Bíblia (os católicos aceitam influências de teólogos, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino). Já Calvino foi o responsável pela introdução do puritanismo, que combinava regras rígidas de conduta com uma fervorosa dedicação ao trabalho. No começo do século 20, o sociólogo alemão Max Weber publicou o texto clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, no qual atribui a essa invenção de Calvino o sucesso do capitalismo em países evangélicos.

Todos esses movimentos estimulavam o fim do monopólio da Igreja sobre a interpretação da Bíblia. Cabia a todo e qualquer cristão ler as Escrituras e tirar delas o que quisesse. Os protestantes recusavam a idéia de que um único líder - o papa - deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem os batistas, os metodistas, os presbiterianos...

Mas o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o país - o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no território português.

A liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de 1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais que não tivessem "aparência exterior de templo". No mesmo ano, alemães fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar almas. Eles caíram nas graças da elite intelectual republicana que, impressionada com a "ética protestante", defendia a presença de evangélicos como condição para a modernização do país.

Mas os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética protestante de Weber. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria decisiva para definir o perfil evangélico nacional: a Congregação Cristã no Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo, um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século.

Começou aí o que o sociólogo Paul Freston chama de "a primeira onda do pentecostalismo brasileiro". O movimento era desaprovado tanto por católicos quanto pelos protestantes "históricos", como são conhecidas as correntes diretamente ligadas a Lutero e Calvino. Nem uns nem outros gostavam da principal característica da doutrina pentecostal: a exacerbação dos poderes sobrenaturais do Espírito Santo (a palavra "pentecostalismo" vem de uma passagem da Bíblia que diz que, num dia de Pentecostes - a Páscoa judaica -, o Espírito Santo desceu aos apóstolos e começou a operar milagres). O mais notável desses poderes é a capacidade que Deus tem de curar imediatamente qualquer problema de saúde - daí as cenas de aleijados abandonando muletas e míopes pisando nos óculos. O pentecostalismo cresceu na classe baixa, promovendo cultos de adoração fervorosa e improvisada, bem dissonantes dos protestantes tradicionais, tão formais quanto contidos.

Para participar das novas congregações, os fiéis eram obrigados a se submeter a rígidas normas comportamentais. Os pentecostais eram os "crentes" estereotípicos: mulheres de cabelos compridos e saia, homens de terno e Bíblia na mão. As palavras essenciais para entender suas rotinas de vida são ascetismo, ou a recusa de usufruir os prazeres da carne, e sectarismo, o isolamento do restante da sociedade. Por trás delas, está a idéia de que o cristão deve se manter concentrado em Deus. Só assim ele pode evitar que o Diabo ganhe espaço na sua vida. Para os pentecostais, o mundo é simples: o que não é de Deus é o Diabo.

A Deus é Amor, aquela que acabou de abrir um megatemplo no centro de São Paulo, é uma das mais rigorosas entre as pentecostais. Ela proíbe freqüentar praias, praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um versículo bíblico que diz "desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança". Tantas regras têm compensação: para os pentecostais, o melhor da vida está reservado aos fiéis para depois da morte.

Até a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da "segunda onda", no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar de "neopentecostalismo". Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais. "Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou bisnetas", diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular. De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis do "evangelismo de massas", foram práticas importadas pela Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923.

Deus é um office-boy

Para resumir, neopentecostalismo quer dizer que Monique Evans, Gretchen e Marcelinho Carioca podem agora se considerar "crentes". Para isso, algumas adaptações aconteceram: saem os homens de terno e as mulheres de pêlos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta (veja na página 57 as diferenças entre pentecostais e neopentecostais). A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraíso. "A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. O que interessa é o aqui e o agora", afirma o sociólogo Ricardo Mariano, autor de Neopentecostais - Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.

Outra diferença é a radicalização da divisão do Universo entre Deus e o Diabo. Para os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que cometem: é o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de três meses, é provável que esteja carregando um encosto. "Se a dificuldade completar um ano, daí não há dúvida: a culpa é do demônio", disse para a congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz até câncer no pulmão.

O ritual é feito aos gritos de "sai, capeta", às vezes com lágrimas escorrendo pelo rosto e transes que terminam no exorcismo. Os cultos tornaram-se mais ativos, incluindo aplausos para Jesus e música gospel. Mas a inovação mais profunda do neopentecostalismo foi a aplicação da teologia da prosperidade, aquela exposta no primeiro parágrafo desta reportagem. Graças a ela, o neopentecostalismo ganhou o apelido de "fé de resultados".

"A teologia da prosperidade faz o fiel encarar Deus como um office-boy", diz o cientista da religião e pastor Paulo Romeiro, autor de Supercrentes - O Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. "O crente dá ordens e determina o que pretende. Não há qualquer reconhecimento das fragilidades humanas e de suas necessidades em relação a um Deus superior", afirma Romeiro. No Brasil, além da Universal, a Renascer em Cristo, a Sara Nossa Terra e a Internacional da Graça de Deus adotam a teologia da prosperidade.

A força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o protestantismo. "Há uma verdadeira perda de identidade no movimento evangélico mundial. O pentecostalismo flexibilizou suas exigências comportamentais e até os protestantes históricos passaram a aceitar a participação mais ativa do fiel no culto e algumas manifestações sobrenaturais", afirma o pastor batista Joaquim de Andrade, pesquisador da Agência de Informações da Religião. Mais e mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.

A onda de mudança foi bater até onde a Reforma de Lutero não tinha chegado: nas praias do catolicismo. A influência neopentecostal sobre a renovação carismática católica é tão grande que seu maior expoente no Brasil, padre Marcelo Rossi, é acusado de ter gravado hinos religiosos tirados de templos evangélicos.

Promessas de um novo mundo

Mas por que cada vez mais pessoas abandonam suas religiões para tornarem-se evangélicas? Nos anos 60, a nova religião era vista como uma forma de migrantes de zonas rurais enfrentarem a falta de valores e regras da sociedade moderna e estabelecerem relações de solidariedade na metrópole. Demorou dez anos para essa hipótese ser desacreditada por estudos que mostraram que as igrejas eram compostas igualmente pelos pobres nascidos e viventes na cidade e no campo.

Houve espaço para teorias conspiratórias: o avanço evangélico seria um plano dos Estados Unidos (ou do Diabo) para dominar a América Latina. A hipótese foi defendida a sério pela Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, que na década de 80 enviou memorando ao Vaticano, citado no livro de Mariano, afirmando que a CIA, aliada à direita brasileira, acelerava a "expansão dessa religião alienante no continente para frear a proliferação da Igreja Católica progressista".

Mas essas explicações não convencem ninguém e o avanço neopentecostal exigiu um novo foco nos estudos. Em seu mais recente trabalho, o ainda não publicado "Análise Sociológica do Crescimento Pentecostal no Brasil", Mariano afirma que as motivações para a conversão estariam nas soluções mágicas oferecidas. "Uma grande parcela da população não tem acesso ao serviço de saúde - e, quando tem, recebe atendimento precário e mal entende os médicos. É muito mais fácil, e faz mais sentido, acreditar que os problemas são causados pelo demônio e se tratar na igreja", afirma o sociólogo.

Não é apenas a questão médica que está em jogo. A dualidade entre Deus e o Diabo é uma das mais eficientes respostas para a eterna pergunta sobre como é possível existirem tantas coisas ruins. Um presidiário pode culpar a influência do demônio pelo passado violento - uma explicação para o sucesso da religião nas prisões. Essa dualidade também pode estar na raiz da popularidade evangélica entre ex-viciados em drogas - e de sua comprovada eficácia na luta contra o vício. O apelo pode efetivamente ajudar ex-criminosos e ex-viciados a deixarem seus "maus hábitos" para trás. Com isso, os neopentecostais respondem satisfatoriamente às questões dos nossos tempos - coisa que outras religiões nem sempre conseguem fazer.

Juntando tudo, o que se tem é uma religião que escancara uma ambição materialista e imediata na relação com Deus. Um apelo e tanto, que parece ter especial atração para os mais pobres. Estaríamos, portanto, diante de uma mudança naquilo que as pessoas esperam da experiência religiosa? "Não", responde o estudioso de religiões Antonio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo. "A maior parte das religiões tem esse viés materialista. As pessoas sempre rezam com o objetivo de pedir e receber algo. A diferença é que os evangélicos assumem essa faceta sem se envergonhar."

Seria injusto, no entanto, listar apenas explicações sociológicas para justificar a onda de conversões. Poucas religiões têm tanta disposição para atrair fiéis como os evangélicos. Templos são abertos nos mais distantes rincões e pastores dedicam-se com fervor. As igrejas estão à frente das demais no entendimento de que evangelizar é como convencer um consumidor a comprar. "Os depoimentos de fiéis na TV e no rádio são o apelo de marketing para demonstrar a eficiência dos serviços", diz Ari Pedro Oro, antropólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e organizador do livro Igreja Universal do Reino de Deus. As igrejas seduzem com um produto atraente e oferecem bom serviço. São religiosamente adeptas da mais pura e simples mentalidade empresarial.

Crescei e mutiplicai

Em novembro do ano passado, um evangélico foi ao Programa do Ratinho pedir a devolução dos dízimos que havia dado à igreja. Argumentava que o pastor lhe prometera prosperidade em troca do dinheiro. Sem melhorar de vida, o fiel, como se fosse um consumidor lesado, foi ao Ratinho pedir o dinheiro de volta.

Essa história ilustra de modo brilhante a relação que as neopentecostais criaram com seus fiéis-clientes. Elas prestam um serviço. E eles pagam. É bom lembrar que dar dinheiro a Deus, seja através da caridade ou de doações, é parte da doutrina de diversas religiões, incluindo todas do braço judaico-cristão. Com a teologia da prosperidade, no entanto, o dinheiro ganhou nova função. Agora é preciso dar para receber. Num de seus livros, Edir Macedo, o líder da Universal, explica que devemos formar uma "sociedade com Deus". "O que nos pertence (nossa vida, nossa força, nosso dinheiro) passa a pertencer a Deus; e o que é d'Ele (as bênçãos, a paz, a felicidade, a alegria, tudo de bom) passa a nos pertencer", afirma o bispo.

É uma leitura polêmica do Evangelho. A idéia de que dar dinheiro é parte de uma relação de troca com Deus desperta calafrios em muitos religiosos. "É uma contradição. A Reforma protestante começou justamente porque Lutero se levantou contra a venda das indulgências", diz o pastor Paulo Cezar Brito, líder da Igreja Evangélica Maranata, uma pentecostal que rejeita a teologia da prosperidade.

"Templo é dinheiro", diz a maldosa adaptação do ditado popular. "Deus é o caminho, Edir Macedo é o pedágio", diz outra. Na cabeça de muita gente, as igrejas evangélicas são ótimas opções de carreira para quem pretende enriquecer facilmente. Não dá para negar que muitos realmente ganharam dinheiro com a fé alheia - em especial os líderes das grandes igrejas (veja no quadro da página 60 como se sobe na carreira evangélica). Como em qualquer empresa moderna, pastores hábeis que trazem muito dinheiro para a igreja ganham bem - ninguém confirma a informação, mas comenta-se que alguns salários se parecem com os de astros de futebol, na casa das várias dezenas de milhares de reais. Mas essas afirmações escondem também um preconceito. Em termos legais, não há diferença entre um templo evangélico e qualquer outro local de cultos religiosos. A Constituição garante a todos - evangélicos, católicos ou budistas - a mesma isenção de vários tributos, entre eles o IPTU e o Imposto de Renda.

Além disso, o crescimento da concorrência faz ser cada vez mais difícil sobreviver entre tantas denominações evangélicas (conheça as cinco maiores igrejas no quadro da página 61). Calcula-se que uma congregação precise ter no mínimo 50 integrantes para recolher dízimos e doações em quantidade suficiente para cobrir as despesas mínimas, como aluguel e contas de luz e água. Nessas horas, ser a religião dos pobres não é vantagem. Por isso, cada denominação procura seu nicho de atuação. A Assembléia de Deus prefere abrir templos dentro de bairros isolados, enquanto a Universal opta pelas grandes vias de acesso - uma decisão que pouco tem a ver com a fé, segue mais a lógica da competição de qualquer mercado capitalista.

O maior país católico do mundo pode estar se tornando uma nação de maioria evangélica? Dificilmente, concorda a maioria dos especialistas. Mas eles discordam na hora de prever o ritmo do crescimento. De um lado, estão os que acham que o boom já passou e que a Igreja Católica, com a renovação carismática, equilibrou o jogo. Do outro, pesquisadores que vêem no frágil compromisso dos brasileiros com a religião um prato cheio para os neopentecostais. Cerca de 80% dos nossos católicos se dizem não-praticantes. É um enorme mercado para os evangélicos.

Não é à toa que a maioria dos convertidos vem do catolicismo. Mas, na hora de afirmar a identidade e escolher um adversário, o pentecostalismo ataca o candomblé e a umbanda. E vai na jugular, às vezes escorregando para a intolerância religiosa. Em quase todos os templos é possível ouvir que essas religiões cultuam o Diabo. Também há casos de ataques a terreiros estimulados por pastores. Pode-se dizer que a briga contra as religiões afro-brasileiras, e não contra o catolicismo, o verdadeiro rival, seja uma estratégia de marketing. Quando enfrentaram os católicos, os evangélicos levaram um contra-ataque duro, que envolveu denúncias de charlatanismo e estelionato e ameaçou a sobrevivência das igrejas, além de provavelmente afastar fiéis. A popularidade dos evangélicos chegou ao fundo do poço quando um pastor da Universal chutou na TV uma estátua de Nossa Senhora Aparecida (os evangélicos não cultuam imagens).

Mas, embora esses episódios possam dar a impressão de que o fanatismo religioso esteja em alta no Brasil, muitos especialistas defendem a tese de que o crescimento evangélico seja um indício do contrário: de que cada vez mais gente rejeita a religião. É o que sugerem pesquisas mostrando concentrações de evangélicos nas mesmas regiões onde há altos índices de pessoas "sem religião" - caso do estado do Rio e da zona leste paulistana. "As pessoas estão experimentando uma nova crença. Se perceberem que não está dando certo, que Deus não é tão fiel, podem desistir da busca", diz o sociólogo Pierucci. "Abandonar a religião oficial é o primeiro passo de saída do mundo religioso", afirma.

Um indício de que a conversão ao mundo evangélico significa um arrefecimento do fervor religioso é o fato de que as neopentecostais exigem poucas mudanças nos fiéis. O resultado é que, quanto mais crescem, menos os evangélicos mudam a cara do país - bem ao contrário da revolução que ocorreu na Europa com as idéias de Lutero e Calvino. Prova disso é a programação da Rede Record, comprada pela Igreja Universal com o dinheiro do dízimo, que pouco difere das concorrentes.

Talvez o trunfo evangélico para conquistar almas seja sua capacidade de adaptação. Com a rejeição à centralização da interpretação bíblica herdada da Reforma protestante, qualquer um pode abrir um templo e pregar como quiser. Assim, enquanto seus "irmãos" se expandiam em áreas pobres, a Igreja Bola de Neve cresceu 1 100% em três anos orando para os ricos. Seus dez templos, cuja marca registrada são as pranchas de surfe como púlpito e os hinos religiosos em ritmo de reggae, funcionam em áreas de classe média-alta de São Paulo e cidades de praia como Florianópolis, Itacaré e Guarujá. O público são jovens da classe A e B, com curso superior. Para quem está acostumado a fiéis pobres e pouco instruídos, a Bola de Neve é uma surpresa desconcertante. Para os evangélicos, somente mais uma prova de que a obra de Deus chegará a todos os corações.

A árvore da fé

Metade dos 2 bilhões de cristãos é católica e 10% são ortodoxos. Os outros 40% são evangélicos (ou protestantes). E as novas igrejas pentecostais e neopentecostais cresceram tanto que já são quase metade dos evangélicos - ou 19% da cristandade.

ORTODOXOS

Quando a cristandade se parte em duas, nasce essa nova religião, graças a discordâncias sobre questões teológicas pontuais, como o papel das imagens de Cristo. Menos centralizada que o catolicismo, a religião foi se fragmentando: as igrejas ortodoxas russa e grega são hoje as duas principais

CISMA DO ORIENTE

A separação do Império Romano entre o oriental e o ocidental, seguida da derrocada deste último, criou as condições para a primeira grande cisão do cristianismo, em 1054 - em grande medida uma disputa de poder entre o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla, a capital do lado oriental

CRISTO

Embora a Igreja atribua ao apóstolo Pedro a sua fundação, a cristandade primitiva pouco mais era que um punhado de grupos autônomos. Como o centro do mundo era Roma, era natural que a cidade fosse se tornando também a "capital" da Igreja, com o crescente poder do papa

CATÓLICOS

Os católicos romanos mantêm-se subordinados ao poder centralizado do papa. Suas principais diferenças com os demais segmentos da religião estão relacionadas à crença em santos e às representações da imagem de Cristo. As maiores populações católicas, hoje, estão na América

PROTESTANTESPROTESTANTISMO

Em 1517, Lutero denunciou falhas na condução do cristianismo. A polêmica acabou dando origem ao terceiro grande ramo do cristianismo, ao lado da Igreja Católica e da Ortodoxa. Como os protestantes (ou evangélicos) combatem a centralização papal, acabaram se fragmentando em muitas denominações

NEOPENTECOSTAIS

Diferem dos pentecostais pela liberalização dos costumes e a teologia da prosperidade. Embora sejam só uma folhinha recente num ramo secundário desta árvore, são responsáveis pela explosão mundial evangélica

PENTECOSTAIS

Surgidos nos EUA (onde batistas e metodistas são fortes), se espalharam por regiões pobres. Aceitam manifestações do Espírito Santo, como a capacidade de curar doentes. No Brasil, são conhecidos pelos costumes rígidos

METODISTAS

Discípulos de John Wesley, que deixou a Igreja Anglicana para pregar nas ruas da Inglaterra. O nome é inspirado no grupo estudantil liderado por Wesley, chamados de "metódicos" por sua estrita observância religiosa

LUTERANOS

O movimento iniciado por Lutero está diretamente ligado aos primeiros ideais protestantes. A nova religião libera a comunhão com Deus para todos os indivíduos, sem a intervenção de sacerdotes, elimina os rituais considerados não bíblicos e permite a leitura da Bíblia na língua local

BATISTAS

Como surgiram na Inglaterra, podem ser considerados dissidência do anglicanismo. Rejeitam o batismo infantil e adotam o "batismo de fé" de adultos (que são imersos em água)

ANGLICANOS

A religião surgiu só para satisfazer o rei Henrique VIII, que queria se divorciar, contra a vontade do papa, e nomeou-se "Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra"

CONGREGACIONALISTASCALVINISMO

Se Lutero pregava mudanças dentro do catolicismo, João Calvino não tinha dúvidas: queria reformar a religião, em busca de uma maior observância à Bíblia e a princípios morais rígidos. Seus seguidores fundaram o presbiterianismo e o congregacionalismo

MÓRMONS, ADVENTISTAS E TESTEMUNHAS DE JEOVÁFOLHAS SOLTASOs mórmons, adventistas e testemunhas de Jeová nasceram no protestantismo, mas geralmente não são considerados evangélicos porque, além da Bíblia, baseiam as doutrinas também em escrituras modernas

Igual mas diferente

Pentecostalismo

QUEM É - Congregação Cristã no Brasil, Deus é Amor, Assembléia de Deus, Brasil para Cristo

PARAÍSO - A vida na Terra é uma fase de espera. Qualquer sofrimento é mínimo se comparado às maravilhas do céu

DÍZIMO - O fiel deve dar à Igreja regularmente 10% de seu salário, como determina a Bíblia

PRAZERES - Quem é atraído por prazeres mundanos está se concentrando menos em Deus - e abrindo espaço para o Diabo

SEXO - Sexo serve para reprodução. Quem busca prazer sexual está se entregando ao demônio

VIDA SOCIAL - Deve ficar restrita à comunidade. Álcool e música que não fala de Deus não são para crentes

APARÊNCIA - Algumas igrejas impõem trajes formais e proíbem a depilação e o corte de cabelo. Crianças não podem brincar

TABUS - Adultério, homossexualismo e aborto são inaceitáveis

Neopentecostalismo

QUEM É - Universal, Evangelho Quadrangular, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça de Deus, Renascer

PARAÍSO - Após a morte, todo cristão será recompensado com o Paraíso. Mas é possível vivê-lo na Terra, recebendo as graças de Deus

DÍZIMO - Idem, mas pagando o dízimo o fiel ganha o direito de exigir que Deus o recompense

PRAZERES - Não há nada de errado em se divertir, desde que isso seja feito de forma moderada, sem excessos

SEXO - Prazer sexual é uma bênção de Deus, desde que a relação aconteça entre marido e mulher

VIDA SOCIAL - Não se deve beber nem fumar, mas não é necessário se isolar da sociedade

APARÊNCIA - A escolha da roupa é uma questão de gosto pessoal. Usar maquiagem e ser moderadamente vaidoso não é proibido

TABUS - Idem, idem, idem

Profissão de fé

Para o fiel virar pastor, o importante é ter carisma. Até há pouco tempo, nem mesmo a formação teológica era exigida - algo que vem mudando. Certamente, as chances de um pastor ganhar dinheiro são proporcionais ao seu talento em arrecadar. Cada denominação estabelece seu sistema de organização e escolhe o nome dos cargos - o espírito de liberdade protestante ainda é levado a sério. No quadro abaixo, usamos como exemplo o "plano de carreira" da Igreja do Evangelho Quadrangular

Diácono

É o encarregado pelo bem-estar durante os cultos. Cuida da organização do templo, atende novos fiéis e faz a triagem dos casos que serão encaminhados para o pastor. É a única função permitida aos leigos. O trabalho é voluntário

Obreiro

Auxilia o pastor comandando encontros religiosos residenciais, visitando doentes e pregando em novas congregações. Apenas os formados no Instituto Teológico da Quadrangular podem exercer a função. Não há salário

Aspirante ao ministério

Obreiros com carisma e vocação para pregar, com pelo menos quatro anos de experiência, são convidados a comandar cultos na ausência do pastor principal. Esse trabalho também é voluntário

Pastor local

Depois de dois anos como assistente, o sujeito pode comandar os cultos, administrar o templo e atender a congregação - e passa finalmente a ganhar por isso. A remuneração é proporcional ao tamanho do templo e, claro, à sua arrecadação

Superintendente

Pastor responsável por um templo de importância local. Também é encarregado pelo monitoramento de outros templos menores da mesma região

Diretor Integra a cúpula nacional, formada por dez pastores eleitos anualmente. Decide os rumos administrativos e religiosos da Quadrangular

Fonte - Na Internet (clique aqui para conferir) : Revista Superinteressante:

Na Revista convencional (impressa).

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

TRANSFUSÃO DE SANGUE SOB O ASPECTO RELIGIOSO E LEGAL

Luiz Carlos Nogueira


Hoje sabemos da importância e a finalidade do sangue, ou seja, de como ele sustenta a vida, especialmente dos seres humanos, porque o Dr. William Harvey (Folkestone, 1 de abril de 1578 — Londres, 3 de junho de 1657), médico britânico, dotourado pela Universidade Cambridge, pois foi ele que pela primeira vez descreveu e mapeou corretamente os detalhes do sistema circulatório do sangue que é bombeado por todo o corpo pelo coração. Seus estudos nesse particular se inspiraram na idéias de René Descartes, que em sua "Descrição do Corpo Humano" disse que as artérias e as veias eram canos que carregavam nutrientes pelo corpo.

Pois bem, uma das ramificações evangélica denominada “Testemunhas de Jeová”, não aceita a transfusão de sangue, mesmo nos casos de grave necessidade de socorro médico, em que o paciente corra risco de morrer.

Eles fundamentam sua recusa em doar e receber sangue de outra pessoa:

— primeiro por questões da sua ética religiosa, porque devemos acreditar no Dador da Vida e confiar nas suas orientações, cuja garantia se baseia em Isaías “48:17 Assim disse Jeová, teu Resgatador, o Santo de Israel: “Eu, Jeová, sou teu Deus, Aquele que te ensina a tirar proveito, Aquele que te faz pisar no caminho em que deves andar.”;

—segundo porque o Criador em suas primeiras referências sobre o sangue, teria declarado em Gênesis, Capítulo 9 e versículos a seguir transcritos : “3 Todo animal movente que está vivo pode servir-vos de alimento. [...]. 4 Somente a carne com a sua alma — seu sangue — não deveis comer. 5 E, além disso, exigirei de volta vosso sangue das vossas almas. Da mão de cada criatura vivente o exigirei de volta; e da mão do homem, da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. 6 Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem.”

Segue-se ainda em Levítico, Capítulo 17 e versículos de 10 a 16:

“10 Quanto a qualquer homem da casa de Israel ou algum residente forasteiro que reside no vosso meio, que comer qualquer espécie de sangue, eu certamente porei minha face contra a alma que comer o sangue, e deveras o deceparei dentre seu povo. 11 Pois a alma da carne está no sangue, e eu mesmo o pus para vós sobre o altar para fazer expiação pelas vossas almas, porque é o sangue que faz expiação pela alma [nele]. 12 Foi por isso que eu disse aos filhos de Israel: “Nenhuma alma vossa deve comer sangue e nenhum residente forasteiro que reside no vosso meio deve comer sangue.
13 Quanto a qualquer homem dos filhos de Israel ou algum residente forasteiro que reside no vosso meio, que caçando apanhe um animal selvático ou uma ave que se possa comer, neste caso tem de derramar seu sangue e cobri-lo com pó. 14 Pois a alma de todo tipo de carne é seu sangue pela alma nele. Por conseguinte, eu disse aos filhos de Israel: “Não deveis comer o sangue de qualquer tipo de carne, porque a alma de todo tipo de carne é seu sangue. Quem o comer será decepado [da vida].” 15 Quanto a qualquer alma que comer um corpo [já] morto ou algo dilacerado por uma fera, quer seja natural quer residente forasteiro, neste caso terá de lavar suas vestes e banhar-se em água, e ele terá de ser impuro até à noitinha; e ele terá de ser limpo. 16 Mas, se não as lavar e se não banhar sua carne, então terá de responder pelo seu erro.”

Para as “Testemunhas de Jeová”, aceitar a transfusão de sangue é o mesmo que comer sangue.

Segundo afirmam, trata-se de regras mais do que dietéticas, porque envolvem princípio moral, pois o sangue humano não deve ser mal empregado, devido seu alto significado simbólico, qual seja — representa a vida concedida por Jeová. Além disso, consideram o aspecto infecto-contagioso (das doenças transmitidas pelo sangue). Para elas — o sangue não é necessário, e os pacientes transfundidos correm significativo risco de sofrer efeitos indesejáveis.

Não sou médico para avaliar as afirmações de que existem meios alternativos para não se fazer a transfusão de sangue. As explicações a esse respeito, abaixo reproduzidas, podem ser obtidas no site http://www.watchtower.org/t/hb/article_03.htm :

"Alternativas de qualidade para a transfusão

O leitor poderia pensar: ‘As transfusões são perigosas, mas será que existem alternativas de qualidade?’ É uma boa pergunta, e observe a palavra “qualidade”.
Todos, inclusive as Testemunhas de Jeová, desejam um tratamento médico eficaz de alta qualidade. O Dr. Grant E. Steffen comentou sobre dois elementos-chaves: “Tratamento médico de qualidade é a capacidade de os elementos desse tratamento alcançarem alvos médicos e não-médicos legítimos.” (Revista The Journal of the American Medical Association, 1.° de julho de 1988) ‘Alvos não-médicos’ incluiriam não violar a ética ou a consciência do paciente, baseada na Bíblia. —
Atos 15:28, 29.

“Temos de concluir que, atualmente, existem muitos pacientes que recebem componentes sanguíneos que não têm nenhuma probabilidade de beneficiar-se duma transfusão (o sangue não é necessário), e, ademais, correm significativo risco de sofrer efeitos indesejáveis. Nenhum médico exporia deliberadamente um paciente a uma terapia que não pudesse beneficiá-lo, mas que talvez o prejudicasse, mas é exatamente isso que ocorre quando o sangue é transfundido desnecessariamente.” — Transfusion-Transmitted Viral Diseases (Viroses Transmitidas por Transfusão), de 1987.
Existem meios legítimos e eficazes de cuidar de graves problemas de saúde sem se usar sangue? Felizmente a resposta é sim.
Embora a maioria dos cirurgiões afirme só ter dado sangue quando isso era absolutamente necessário, diminuiu rapidamente o emprego de sangue, por parte deles, depois que surgiu a epidemia de AIDS. Um editorial do periódico Mayo Clinic Proceedings (setembro de 1988) dizia que “um dos poucos benefícios da epidemia” foi que “resultou em várias estratégias por parte dos pacientes e dos médicos para evitar a transfusão de sangue”. Um dirigente de banco de sangue explica: “O que deveras mudou foi a intensidade da mensagem, a receptividade dos clínicos à mensagem (por causa da maior percepção dos riscos), e a demanda para que se considerassem as alternativas.” — Periódico Transfusion Medicine Reviews, de outubro de 1989.
Observe que existem alternativas! Isto se torna compreensível quando examinamos os motivos pelos quais se transfunde sangue.
A hemoglobina contida nos glóbulos vermelhos transporta o oxigênio necessário para a boa saúde e a vida. Assim, caso uma pessoa tenha perdido muito sangue, pareceria lógico apenas repô-lo. Normalmente, dispõe-se de cerca de 14 ou 15 gramas de hemoglobina em cada 100 centímetros cúbicos de sangue. (Outra forma de medir sua concentração é o hematócrito, que comumente é de cerca de 45 por cento.) A “regra” aceita era de transfundir um paciente antes duma operação se sua taxa de hemoglobina fosse inferior a 10 (ou um hematócrito de 30 por cento). A revista suíça Vox Sanguinis (março de 1987) noticiou que “65% dos [anestesiologistas] exigiam que os pacientes tivessem uma taxa pré-operatória de hemoglobina de 10 g/dL para a cirurgia eletiva”.
Mas, numa conferência sobre a transfusão de sangue, realizada em 1988, o Professor Howard L. Zauder perguntou: “Como Foi que Obtivemos um ‘Número Mágico’?” Ele declarou expressamente: “A etiologia dessa exigência de que o paciente deva ter 10 gramas de hemoglobina (Hgb) antes de receber anestesia está envolta em tradição, está revestida de obscuridade e não é comprovada por evidência clínica ou experimental.” Imagine só os muitos milhares de pacientes submetidos a transfusões que foram motivadas por uma exigência ‘obscura, não comprovada’!
Alguns talvez fiquem imaginando: ‘Por que será que um nível 14 de hemoglobina é normal, se a pessoa consegue passar com muito menos?’ Bem, a pessoa dispõe assim de considerável reserva da capacidade de transporte de oxigênio, de modo que esteja pronta para algum exercício ou trabalho pesado. Estudos feitos de pacientes anêmicos até mesmo revelam que “é difícil detectar um déficit na capacidade de trabalho, com concentrações de hemoglobina tão baixas quanto 7 g/dL. Outros têm encontrado evidência de apenas uma moderada redução do desempenho”. — Contemporary Transfusion Practice (A Prática Transfusional Contemporânea), 1987.
Enquanto que os adultos se ajustam a uma baixa taxa de hemoglobina, que dizer das crianças? O Dr. James A. Stockman III diz: “Com poucas exceções, os bebês prematuros apresentarão um declínio da hemoglobina do primeiro ao terceiro mês . . . As indicações de transfusão no berçário não estão bem definidas. Deveras, muitos bebês parecem tolerar níveis notavelmente baixos de concentração de hemoglobina, sem nenhuma dificuldade clínica aparente.” — Revista Pediatric Clinics of North America, de fevereiro de 1986.

“Alguns autores declararam que valores tão baixos da hemoglobina quanto de 2 a 2,5 g/100 ml podem ser aceitáveis. . . . A pessoa saudável poderá tolerar uma perda sanguínea de 50 por cento da massa de glóbulos vermelhos e permanecer quase que inteiramente assintomática, caso a perda do sangue ocorra por certo período de tempo.” — Techniques of Blood Transfusion (Técnicas da Transfusão de Sangue), de 1982.
Tais informações não significam que não se precisa fazer nada quando uma pessoa perde muito sangue num acidente, ou numa operação. Caso a perda seja rápida e acentuada, cai a pressão arterial da pessoa, e ela pode entrar em choque. O que se precisa basicamente é que se faça cessar a hemorragia e se restaure o volume do sistema circulatório. Isso impedirá o choque e manterá em circulação as restantes hemácias e outros componentes do sangue.
A reposição do volume do plasma pode ser conseguida sem se usar sangue total ou plasma sanguíneo.
* Diversos líquidos que não contêm sangue constituem eficazes expansores do volume do plasma. O mais simples de todos é a solução salina, que é tanto barata como compatível com o nosso sangue. Existem também líquidos dotados de propriedades especiais, tais como a dextrana, o Haemaccel, e a solução de lactato de Ringer. A hidroxietila de amido (HES; amido-hidroxietil) é um mais recente expansor do volume do plasma e “pode ser seguramente recomendado para aqueles pacientes [queimados], que objetem a produtos de sangue”. (Journal of Burn Care & Rehabilitation, janeiro/fevereiro de 1989) Tais líquidos apresentam vantagens definitivas. “Soluções cristalóides [tais como a solução salina normal e o lactato de Ringer], o Dextran e o HES são relativamente atóxicos e baratos, prontamente disponíveis, podem ser estocados à temperatura ambiente, não exigem testes de compatibilidade e estão isentos do risco de doenças transmitidas pela transfusão.” — Blood Transfusion Therapy—A Physician’s Handbook (A Terapia da Transfusão de Sangue — Manual do Médico), de 1989.
Talvez pergunte, porém: ‘Por que funcionam bem os líquidos de reposição não-sanguíneos, uma vez que eu preciso de glóbulos vermelhos para fazer com que o oxigênio seja transportado por todo o meu corpo?’ Conforme mencionado, a pessoa dispõe de reservas para o transporte de oxigênio. Caso perca sangue, acionam-se maravilhosos mecanismos compensatórios. Seu coração bombeia mais sangue em cada batimento. Visto que o sangue perdido foi substituído por um líquido adequado, o sangue agora diluído flui mais facilmente, mesmo nos pequenos vasos. Em resultado de mudanças químicas, mais sangue é liberado para os tecidos. Estas adaptações são tão eficazes que, se somente a metade de suas hemácias permanecerem, o transporte de oxigênio poderá ser até cerca de 75 por cento do normal. Um paciente em repouso utiliza apenas 25 por cento do oxigênio disponível em seu sangue. E a maioria dos anestésicos reduz a necessidade de oxigênio do corpo."

O fato é que diante de uma situação de emergência, em que o indivíduo (paciente) tenha sofrido um acidente ou mesmo uma intervenção cirúrgica, e que necessite de transfusão de sangue para evitar o risco de vir a óbito, o médico fica exposto a uma série de consequências:

— primeira, não transgredir o JURAMENTO OFICIAL DO CURSO DE MEDICINA, instituído pela Declaração de Genebra da Associação Médica Mundial - 1948, a mais antiga e conhecida de todas, que tem sido utilizada em vários países na solenidade de recepção aos novos médicos inscritos na respectiva Ordem ou Conselho de Medicina. A versão clássica em língua portuguesa tem a seguinte redação:

“Eu, solenemente, Juro consagrar minha vida a serviço da Humanidade. Darei como reconhecimento a meus mestres, meu respeito e minha gratidão. Praticarei a minha profissão com consciência e dignidade. A saúde dos meus pacientes será a minha primeira preocupação. Respeitarei os segredos a mim confiados. Manterei, a todo custo, no máximo possível, a honra e a tradição da profissão médica. Meus colegas serão meus irmãos. Não permitirei que concepções religiosas, nacionais, raciais, partidárias ou sociais intervenham entre meu dever e meus pacientes. Manterei o mais alto respeito pela vida humana, desde sua concepção. Mesmo sob ameaça, não usarei meu conhecimento médico em princípios contrários às leis da natureza. Faço estas promessas, solene e livremente, pela minha própria honra.”

Está por trás disso, a filosofia herdada da escola hipocrática, criada e inspirada na personagem que se tornaria o paradigma de todos os médicos - Hipócrates. Ele separou a medicina da religião e da magia; afastou as crenças em causas sobrenaturais das doenças e fundou os alicerces da medicina racional e científica. Ao lado disso, deu um sentido de dignidade à profissão médica, estabelecendo as normas éticas de conduta que devem nortear a vida do médico, tanto no exercício profissional, como fora dele.

Da coleção de 72 livros contemporâneos da escola hipocrática, conhecida como Corpus hippocraticum, sete desses livros tratam exclusivamente da ética médica, quais sejam: Juramento, Da lei, Da Arte, Da Antiga Medicina, Da conduta honrada, Dos preceitos, Do médico, cujo conteúdo extenso, não caberia transcrever aqui.

— segunda, que tem raízes nas profundezas do ser do profissional da medicina. O médico tem por vocação um grande sentimento humano e humanitário de minorar e se puder e tiver ao seu alcance, acabar com o sofrimento do ser humano e salvar vidas. Isto está ínsito na sua alma, e constitui penso eu, um fator psicológico que só os anjos não enfrentam, porque estes podem fazer milagres;

— terceira e última das consequências, esbarra na questão legal da responsabilidade civil. Esta eu não preciso fazer aqui muito comentário, que todos os que têm juízo são capazes de avaliar. Apenas para ir finalizando, informo um dos vários casos de transfusão de sangue envolvendo pacientes Testemunhas de Jeová, julgado pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, conforme o acórdão que segue transcrito:

“CAUTELAR. TRANSFUSÃO DE SANGUE. TESTEMUNHAS DE JEOVÁ. Não cabe ao poder judiciário, no sistema jurídico brasileiro, autorizar ou ordenar tratamento médico-cirúrgicos e/ou hospitalares, salvo casos excepcionalíssimos e salvo quando envolvidos os interesses de menores. Se iminente o perigo de vida, é direito e dever do medico empregar todos os tratamentos, inclusive cirúrgicos, para salvar o paciente, mesmo contra a vontade deste, de seus familiares e de quem quer que seja, ainda que a oposição seja ditada por motivos religiosos. Importa ao medico e ao hospital demonstrar que utilizaram a ciência e a técnica apoiadas em séria literatura médica, mesmo que haja divergências quanto ao melhor tratamento. O judiciário não serve para diminuir os riscos da profissão médica ou da atividade hospitalar.
Se transfusão de sangue for tida como imprescindível, conforme sólida literatura médico-cientifica (não importando naturais divergências), deve ser concretizada, se para salvar a vida do paciente, mesmo contra a vontade das Testemunhas de Jeová, mas desde que haja urgência e perigo iminente de vida (art-146, §3°, I, do Código Penal). [...] O direito à vida antecede o direito à liberdade, aqui incluída a liberdade de religião; é falácia argumentar com os que morrem pela liberdade, pois aí se trata de contexto fático totalmente diverso. Não consta que morto possa ser livre ou lutar por sua liberdade. Há princípios gerais de ética e de direito, que aliás norteiam a Carta das Nações Unidas, que precisam se sobrepor às especificidades culturais e religiosas; sob pena de se homologarem as maiores brutalidades; entre eles estão os princípios que resguardam os direitos fundamentais relacionados com a vida e a dignidade humanas. Religiões devem preservar a vida e não exterminá-la. [...] Abrir mão de direitos fundamentais, em nome de tradições, culturas, religiões, costumes, é, queiram ou não, preparar caminho para a relativização daqueles direitos e para que venham a ser desrespeitados por outras fundamentações, inclusive políticas. [...] É o voto.” (TJRGS. Apelação Cível. 595000373. 6ª.C.C. Rel. Des. Sérgio Gischkow Pereira. J. 28.03.1995)

Aliás, Miguel Kfouri Neto ( in “Responsabilidade Civil Médico”. 5.ed. rev. e atual. à luz do novo Código Civil, com acréscimo doutrinário e jurisprudencial. São Paulo: RT, 2003. p.175), diz que ainda não encontrou registro jurisprudencial, com decisão condenando algum médico à reparação civil por ter procedido à transfusão de sangue contra a vontade do paciente ou de seu responsável.

Também, segundo o referido autor, no campo penal, o TACrimSP teve oportunidade de se manifestar sobre a matéria, “sic”:

“A vida humana é um bem coletivo, que interessa mais à sociedade que ao indivíduo, egoisticamente, e a lei vigente exerce opção axiológica pela vida e pela saúde, inadmitindo a exposição desses valores primordiais na expressão literal do texto, a perigo direto e iminente [...] Uma vez comprovado efetivo perigo para a vítima, não cometeria delito nenhum o médico que, mesmo contrariando a vontade expressa dos por ela responsáveis, à mesma tivesse ministrado transfusão de sangue.”

Embora a cultura brasileira carregue em si uma enorme tolerância religiosa, contudo, o Estado brasileiro é laico. Não tem o comando religioso. De tal sorte, a preservação da vida humana deve ser totalmente amparada, já que ela é considerada um bem coletivo, de interesse social, portanto, o indivíduo, em caso de emergência sujeito ao perigo de morte, deve receber tratamento médico adequado.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A Noite Negra - Por Christian Bernard

No âmbito deste artigo desejo falar de um assunto que é parte de todas as tradições .

Refere-se a um dos períodos que todo místico é compelido a vivenciar na senda da Luz .

Trata-se da Noite Negra . Não houve um só Avatar , Messias ou Profeta que, de uma forma ou outra , não tenha evocado esse período de grande confusão que todo buscador, num dado momento de sua busca, deve enfrentar e, se possível, superar.

Estou certo em dizer " se possível ", pois pode acontecer que a Noite Negra nos afaste definitivamente da Luz , pelo menos durante uma encarnação.

Para começar, que é essa Noite Negra? Posso dizer que, no plano individual, é um ciclo que corresponde a um questionamento do ideal seguido até então.

Conforme o caso, esse questionamento pode ter origem numa série de provações que atravessamos, ou numa crise interior sem qualquer ligação com o mundo objetivo.

Uma doença, um acidente, a perda de um ente querido, problemas familiares, problemas profissionais, são alguns elementos que podem abalar a vida mística de um indivíduo e mergulhá-lo nas trevas da dúvida.

Independentemente dessas provações, também pode acontecer, por razões puramente psicológicas , que o místico se sinta invadido por impulsos interiores negativos que o levem brutalmente a rejeitar os valores em que acredita .

Esteja sua origem nas tribulações terrenas ou num grande sofrimento interior, a Noite Negra costuma se traduzir de uma mesma forma: a chama de nossa fé mística vacila e se apaga por um período, que dura enquanto persistimos em não reacendê-la. Sofremos em todos os planos, mas, mesmo sabendo que somos responsáveis por esse sofrimento, recusamo-nos a sair das areias movediças que, hora após hora, dia após dia, semana após semana, sufocam-nos um pouco mais. Mãos nos são estendidas, mas não queremos vê-las, muito menos pegá-las .

Não acreditamos mais em nada, nem em Deus, nem em Satanás, nem no homem, nem no amigo, nem em nós próprios.

Deixamo-nos aprisionar pela fatalidade e tornamo-nos o espectador entediado de nós mesmos.

Vemo-nos partir à deriva no oceano de nossos temores, angústias e desespero.

Nossa própria existência torna-se um fardo que carregamos sem a menor convicção, e no lenho dessa cruz deixamos fenecer a rosa, pois sequer a vemos mais.

Entre nós, muitos já conhecem esses períodos particularmente sombrios da existência, que são o quinhão que a todos nós cabe, mas que, no caso do místico, assume uma dimensão interior muito mais ampla, pois ele sabe que corresponde a escolhas cujo resultado concerne diretamente sua evolução mística. Ele sente no mais profundo de si mesmo, que eles constituem um questionamento do seu ideal, o oprimem, pois sabe que sairá dele engrandecido ou, ao contrário, diminuído.

Isso acontece porque a Noite Negra, tal como se manifesta a vida de um místico, é o resultado de um conflito entre seu Eu objetivo e seu Eu espiritual.

É verdade que ele pode ter a impressão de que não é esse o caso, sobretudo se ela tem origem em provações como as que citei anteriormente.

Não obstante, quer ele queira ou não, essa Noite Negra só existe porque ele oscila entre os impulsos de seu ego e as injunções de sua alma, ou seja, entre a ilusão terrena e a Realidade Cósmica.

Tomemos um dos exemplos mais dolorosos para ilustrar o que dizemos: a morte.

Muitos místicos já vivenciaram um período de total entrega após a perda de um ente querido.

Nessas penosas circunstâncias, eles se sentiram assaltados por um sentimento de injustiça que inevitavelmente os levou a duvidar de suas próprias crenças.

Por que seu marido ou sua mulher, seu pai ou sua mãe, seu filho ou sua filha seu irmão ou sua irmã, morreram tão jovens?

Por que com tanto sofrimento? Por que naquele momento? Por quê ? Deus verdadeiramente existe ?

Será que o misticismo só serve para dar falsas esperanças , tornar a existência menos amarga , dissimular um Não-Ser , escusar um acaso cego e arbitrário ?

É claro que quando se deixa a mente enredar nesse tipo de engrenagem de perguntas-respostas, surgem tantos " Por quês " quanto motivos para duvidar.

O Eu objetivo por todos os meios, busca tornar-se o dono da situação, pois seu egoísmo vê em tudo aquilo uma oportunidade de ficar mais satisfeito.

Com efeito, quanto mais duvidamos da dimensão espiritual da existência, mais damos importância ao mundo material.

Em outras palavras, quanto mais questionamos o DEUS de nosso coração, mais o diabo de nossa compreensão se rejubila.

Na abrangência deste artigo, não farei o inventário dos numerosos argumentos, ao mesmo tempo lógicos e místicos, provando que Deus, tal como o concebo, não pode deixar de existir.

Se você negasse totalmente sua existência, não estaria lendo este texto. O problema não é tão simples quando nos defrontamos com circunstâncias tão aflitivas como a perda de um ente querido. Como já disse, pode acontecer que coloquemos em dúvida nosso ideal místico, porque a morte é bem verdade, livra-nos de uma presença à qual nosso Eu objetivo foi apegado por muitos anos. Mas se a existência da alma sempre foi para nós uma evidência, se consagramos toda uma vida terrena à evolução de nossa alma, como não reconhecer sua realidade no momento derradeiro em que ela deixa o corpo de alguém que amamos tanto quanto amamos a nós mesmos?

O que é verdadeiro para essa grande tribulação o é para todas as outras que marcam nossa existência, pois nenhuma delas deveria nos abalar a ponto de provocar nosso mergulho na Noite Negra. No entanto, a experiência mostra que não somos invulneráveis e que a adversidade pode obscurecer nossa vida espiritual.

Por quê? Porque o fato de sermos adeptos do misticismo não faz de nós necessariamente místicos com uma fé inabalável.

Por outro lado nossa análise das provações que sofremos pode ser imperfeita.

Penso em particular naqueles que, sistematicamente, tentam compreender as razões cármicas dos sofrimentos físicos ou morais de que são vítimas em certos momentos da vida. Alguns se sentem invadidos pela dúvida quando sofrem provações que atribuem a um carma negativo, ao se ver injustificado, em vista do bem que tinham a certeza de ter espalhado ao seu redor. No âmbito de minha função no seio da AMORC, eles vêm me ver para dizer que não compreendem por quê, após terem passado tantos anos estudando e praticando o misticismo Rosacruz, conheceram tantas derrotas, tantos infortúnios e dissabores.

Desesperados, feridos em seu coração e sua alma eles me contam suas dúvidas e, às vezes, o abandono total de sua afiliação à fraternidade dos Rosacruzes.

Contudo, como lhes disse, nunca se deve estabelecer uma relação sistemática entre uma provação e o carma negativo.

Em outras palavras, parece-me fundamental compreender que nem todas as provações sejam quais forem, são necessáriamente cármicas. Muitas delas tem caráter puramente evolutivo, e sua única finalidade é testar nossa força interior, pressionando ao mesmo tempo nossa aptidão física e mental para sobrepujá-las . Uma analogia pode ajudá-lo a compreender isso. Imagine um aluno que tem horror à Matemática e é argüido por seu professor.

Essa argüição é para ele uma provação que ele é obrigado a enfrentar, mas que, no entanto, não está ligada a um mau comportamento de sua parte. Essa provação ocorre simplesmente como um acontecimento normal na vida de qualquer estudante. Seu objetivo é incitar sua reflexão e contribuir para a aquisição de certo tipo de conhecimento. Nesse sentido, embora ele a vivencie como uma provação, ela nada tem de cármica.

Imagine agora que esse mesmo aluno seja punido por uma razão justificada e que seu professor, como castigo, mande-o fazer um exercício de Matemática.

Neste caso, tratar-se-á efetivamente de uma prova cármica, pois será o resultado de uma aplicação de seu livre-arbítrio.

Esse princípio aplica-se às provações que todo ser humano é inevitavelmente levado a enfrentar. Algumas, efetivamente são cármicas, mas outras, muitas outras, não o são. Elas existem porque são uma condição sine qua non de evolução e porque é impossível, como seres encarnados que somos, evoluirmos sem termos problemas a resolver e dificuldades a superar .

Assim, parece-me muito importante não sermos vítimas de um misticismo mal compreendido, que tenda a associar toda tribulação a um carma negativo. Se assim fosse, deveríamos admitir que, se Jesus foi crucificado, para usar apenas um exemplo, foi para compensar uma sucessão de más ações! Esse tipo de conclusão devemos admitir, é absurdo e opõe-se ao mais simples bom senso.

Portanto, quando surgirem provações em sua vida, em vez de procurar determinar se são ou não cármicas, enfrente-as de um modo responsável, o que quer dizer de maneira mística, com a certeza de que é capaz de superá-las e de que elas contribuirão para uma aceleração de sua evolução.

A Noite Negra, nem sempre segue a provações de caráter cármico ou não. Ela pode seguir a um desequilíbrio psicológico cujas causas estão ligadas, na maioria das vezes, à personalidade do indivíduo. Cada um de nós sabe que não tem o mesmo temperamento, o mesmo caráter e a mesma estrutura emocional de outras pessoas.

Alguns são psicológicamente mais frágeis que outros, sendo essa fragilidade muitas vezes responsável por uma desordem cíclica que pode traduzir-se numa rejeição de valores preestabelecidos. Esse gênero de desordem passageira se produz com freqüência nas pessoas ansiosas ou angustiadas por natureza.

Quando elas estão em crise consigo mesmas, não conseguem definir a causa profunda de seu estado e o sofrem de uma forma negativa, visto que não querem fazer um real esforço para sair daquela situação. O pessimismo as invade, a dúvida as assalta e sua fé vacila. No mais das vezes é uma influência externa que as coloca novamente nos trilhos até o próximo período negro que, elas bem o sabem, virá novamente mergulhá-lhas na obscuridade.

Mas bastaria que no momento em que se sentissem arrastadas pela corrente de suas próprias angústias se voltassem para o Deus de seu coração para que as nuvens que ocultam o sol interior fossem afastadas.

Se, em lugar de se fecharem nos recônditos sombrios de suas idéias negras, elas se abrissem à luz de tudo o que é belo, claro e límpido, compreenderiam a que ponto tinham sido vitimadas pela própria falta de confiança em seu ideal.

Esta observação me leva agora a abordar os motivos místicos que estão na origem da Noite Negra. Seja ela consecutiva à morte de um ente querido, a uma multiplicidade de provações ou a um abandono muito fácil às nossas próprias angústias, só pode ensombrecer a existência de um místico em virtude do apego que ele devota ao seu ideal ser muito frágil, superficial ou ilusório.

Do ponto de vista esotérico, a Noite Negra é o reflexo de uma vitória obtida por nosso dragão interior. Por isso a vida de todo místico é marcada tanto por Noites Negras quanto por derrotas sofridas pelo anjo que nele existe.

Enquanto o ser não tiver atingido o ponto de evolução que propicia a experiência íntima do Divino, permanece vulnerável em sua busca, e sua vulnerabilidade é proporcional à sua fé mística. Isso pressupõe que bem poucos de nós podem afirmar que nunca conheceram períodos sombrios em sua vida espiritual ou que não os conhecerão mais. O próprio Mestre Jesus num momento supremo de sua missão clamou : "Pai, por que me abandonastes? " Por uma fração de segundo, esse Iniciado do mais alto grau duvidou. Mas a questão essencial é saber do que ele duvidou e do que nós duvidamos quando a Noite Negra mergulha nossa alma nas trevas do ateísmo.

Quando examinamos atentamente esse acontecimento da vida mística de Jesus, tudo leva a pensar que ele não duvidou de Deus, mas de si mesmo e de sua capacidade de permanecer fiel em seu sofrimento. Em nosso nível, é exatamente o contrário que acontece quando duvidamos, porque na maior parte do tempo duvidamos de tudo, menos de nós próprios. Mas é nesse nível que se encontra a chave que nos deve permitir vencer todos os períodos obscuros que possam marcar nossa existência.

Nos momentos de desespero, nas provações, na adversidade, nunca devemos perder nossa fé mística; pelo contrário, devemos pensar, falar e agir com uma confiança ainda maior em Deus .

É quando devemos recusar todo compromisso com a dúvida. Nossa única preocupação deve ser a de pedir o auxílio do Cósmico para termos força interior para vencer nossa própria fraqueza, pois é nessa vitória que está a solução de todos os problemas, por mais dramáticos que sejam no plano humano. Isto pressupõe que a prece e a meditação constituem nossos dois maiores aliados para fazer brilhar novamente a Luz quando as circunstâncias tiverem mergulhado nosso Sanctum interior na mais total obscuridade.

Um antigo adágio que todos conhecem, enuncia que " é melhor prevenir que remediar" Isto é verdadeiro no plano do corpo e também no da alma. Quando a doença nos assalta , às vezes é tarde demais para vencê-la. Por isso devemos nos esforçar para sempre reunir as condições físicas e psicológicas mais favoráveis à manutenção da saúde, e assim lançarmos nossas bases para uma prevenção eficaz. O que devemos fazer pelo bem de nosso corpo, também devemos fazer pelo bem de nossa alma. Em vez de esperarmos até que as circunstâncias alterem nossa vida espiritual e destruam nossa fé mística, devemos cultivar nosso jardim interior, semeando ali as sementes de um amor incondicional à Causa Suprema .

Muitos místicos se perdem nas Noites Negras que criaram para si mesmos, porque simplesmente esqueceram de cuidar da rosa que tinham prometido amar sempre. Mas os anos passaram e o tempo, conforme o que eles fizeram, levou-os para a Luz ou os afastou dela. Assim é, na verdade, a lei implacável a que submetemos nosso livre-arbítrio. Se não despertamos voluntariamente para a consciência da alma, a consciência do Eu objetivo se fortalecerá e tomará o controle de nossa existência. Este princípio é colocado em evidência na analogia que fiz acima com a rosa do nosso jardim interior, pois cada um de nós sabe que a manutenção de um jardim requer uma atividade constante.

Não basta fazermos uma boa semeadura para termos uma boa colheita. Precisamos cuidar das sementes e velar para que ervas daninhas não invadam o canteiro. Isto significa que nada de belo, bom e útil pode ser obtido sem esforço. Por isso a atividade é o movente do bem enquanto que a passividade, e inclusive a omissão, são os agentes do mal.

Este princípio aplica-se com mais força ainda à nossa busca espiritual, porque tem a ver com um mundo intangível e invisível. Desejo dizer com isto que é mais fácil preservarmos nosso corpo dos perigos que o ameaçam do que protegermos nossa alma dos ataques do abandono espiritual. No primeiro caso, a ameaça é perceptível; no segundo ela não o é. Isso explica porque um Rosacruz que começa a atrasar o estudo de suas monografias acaba não as abrindo mais. Também é por essa razão que, quando começa a deixar para mais tarde seus períodos de prece e meditação, cada vez fica mais difícil realizar o trabalho que dele se espera. Tendo a natureza horror ao vazio, disso resulta que o vazio que se criou em sua vida interior é progressivamente preenchido por uma existência cada vez mais dirigida para o exterior.

Finalmente, chega o momento em que ele não é mais Rosacruz a não ser no nome, quando então reúne as melhores condições para passar pela experiência de uma Noite Negra decisiva para seu futuro místico. Este exemplo voltado mais para os membros da AMORC pode ser adaptado a muitas atividades da vida diária.

Gostaria de insistir no fato de que, ao contrário do que costumamos pensar, a Noite Negra não é um assunto individual. Ela pode afetar a evolução de toda uma coletividade. Muitos são os países que, no decurso da história, vivenciaram o abandono total de suas instituições religiosas, sociais, econômicas, etc. Isso porque a alma coletiva de uma nação é o reflexo dos milhões de almas que a compõem. Assim, quando um grande número de indivíduos, num mesmo momento vivencia um profundo abismo interior, a consciência do conjunto é afetada. Se dou essa explicação, é porque a humanidade está atualmente mergulhada numa Noite Negra que corresponde ao combate que se desenrola em cada ser. Talvez nunca antes o homem tenha estado tão pronto para o advento da espiritualidade. Ele se busca cada vez mais, e no caos total que sacode o mundo, está a ponto de pôr em cheque todos os valores que nas sociedades modernas cavaram o abismo entre seu corpo e sua alma. Mais do que nunca, atualmente o homem sente que o materialismo, apesar de ter contribuído muito para o seu bem-estar físico, afastou-o de uma vida interior a que ele nunca renunciou verdadeiramente.

Ora, todos sabem que é quando nos encontramos mais distanciados do que amamos, que buscamos por todos os meios nos aproximar. Por isso, além das aparências, devemos ver em nossa época atual as condições de uma aproximação sem precedentes entre Deus e sua Criação. A Noite Negra que a humanidade atravessa é, em si mesma, a prova de que o anjo não está morto no coração de cada homem, mas que, ao contrário, ele nunca bateu com tanta força no dragão que nele existe. Nesse sentido, o que vivemos no plano mundial é só um efeito aparente de uma guerra espiritual em que cada um de nós é um combatente. Isto significa que, se a maioria dos homens forem vencedores de si mesmos e encontrarem a Luz, a humanidade terá todas as oportunidades de ver surgir o Áureo Alvorecer a que todos os Iniciados se referiram.

Como é isso que todos nós ardentemente desejamos, nosso dever é auxiliar nossos irmãos humanos a preencher o vazio interior que os torna tão desamparados diante dos ataques cada vez mais repetidos das forças do mal.

Como? Sendo nós próprios seres responsáveis, fortes, e acima de tudo místicos, não só no nome, mas na ação. Devemos nos comportar de tal forma que todos que entrem em contato conosco vejam em nós alguém cujo otimismo e serenidade são capazes de vencer qualquer provação. Cada vez que a ocasião surja, devemos orientar as conversas no sentido do misticismo e dar provas de que tudo, absolutamente tudo, pode e deve ser tratado do ponto de vista espiritual. Em suma, onde estivermos e do jeito que somos, sejamos a chama que ilumina a alma de nossos semelhantes e aqueça seu coração. Em minha opinião, esta é a única maneira de lhes mostrar o caminho que toda a humanidade deve seguir para sair do labirinto tenebroso onde está perdida. O dever de todos os místicos, e não falo só dos Rosacruzes, é induzir progressivamente uma mudança nas mentalidades, de modo a estabelecer o equilíbrio entre as preocupações materiais e as exigências espirituais.

Toda Noite Negra, seja ela individual ou coletiva, é uma iniciação. Ao final de cada iniciação há uma pequena chama e, quando todas as pequenas luzes se fundirem em uma só, a consciência, individual ou coletiva, vivencia a Iluminação Cósmica. O acesso à Luz Maior então é definitivo e as trevas são banidas para sempre.

Assim Seja !

Paz Profunda !

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Visite o site da Ordem rosacruz-AMORC, acessando este link:http://www.amorc.org.br