sábado, 27 de agosto de 2016

O JARDINEIRO DO CÓSMICO






  

Luiz Carlos Nogueira







Lá estava ele, nos jardins da Loja Campo Grande MS – AMORC, com um regador na mão, tesoura de poda e outros apetrechos, cuidando das suas flores, trazendo de vez em quando, uma nova árvore para plantar, para fazer sombra junto às mais antigas que embelezam aquele recanto espiritual de paz. Eu estava voltando a frequentar aquela confraria disseminadora de luz, quando conheci aquele jardineiro dedicado.

Mas como nosso contrato de vida terrena tem um prazo para estarmos neste planeta, e o contrato desse jardineiro findou no dia 26 de agosto de 2016, ele foi chamado para uma nova empreitada nos jardins do Cósmico, para semear estrelas, lustrar o Sol, refrescar a Lua e pavimentar as galáxias.

Provavelmente ele também espalhará sementes de flores, das mais variadas cores e fragrâncias, para caírem na Terra e germinarem com as primeiras chuvas. Não haverá de se esquecer das rosas que tanto nos fascinam, especialmente quando orvalhadas e desprendendo seus aromas peculiares, que parecem nos dar novas energias.

Esse, agora,  jardineiro do Cósmico,  que tive a honra de conhecer, foi também um médico de almas (psicólogo), um bom amigo, um bom frater.


Mauro Lázaro Pinto, envio-lhe meu abraço espiritual. Até outra vez.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

VISITAR DOENTES: DEVER DO CRENTE E NÃO CRENTE - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA

 




Entre o reduzido número de amigos de meu pai, contava-se um frade.

Conhecera-o em soalheira tarde de Verão, quando foi encarregado de realizar reportagem sobre certo santo, de certa Ordem Religiosa.

E de tal modo ficaram amigos, que durante longos anos, visitava-o no seu conventinho.

Chegaram a trocar presentes e debater assuntos transcendentes, de interesse de ambos.

A amizade era notada por todos, e de tal jeito, que aos poucos tornou-se conhecido e amigos de quase todos os irmãos da comunidade, inclusivo o Superior e o Provincial.

Um dia, a doença que o levaria à morte, atirou-o para Casa de Saúde, onde permaneceu semanas acamado e com poucas esperanças de vida.

Nas suas horas de solidão e desespero, pedia para telefonarem aos amigos, para que o fossem visitar, já que se sentia só, perdido e desanimado num quarto de hospital.

Apareceram familiares, principalmente o primo Júlio – sempre prestável, sempre pronto a fazer pequenos favores, e a visitar e animar doentes.

Além do Júlio, poucos mais apareceram…Os inadiáveis afazeres não lhes permitiam….

Lastimoso, contava aos filhos e à empregada, que, por tanto tempo haver servido a nossa casa, tornou-se membro da família:

 - “Parece impossível, nem o Frei X, que mora tão perto, apareceu…”

Mais tarde – no interregno que a doença lhe deu, – foi ao convento visitar o amigo “atarefado”.

Não estava. Atendeu o porteiro, que prestimoso, foi chamar “um senhor padre”.

Ao abordar a hospitalização, meu pai referiu-se ao facto de Frei X, não ter aparecido, devido a não ter transporte disponível. (Desculpa que lhe deu, pelo telefone.)

Em resposta, ouviu:

- “Não tinha transporte?! … A Casa tem carro. Eu próprio o levaria, com muito gosto, no meu automóvel! …

Uma das obras de caridade do cristão é visitar presos e doentes.

Que haja receio de confortar presos, compreende-se, mas que não se visite doentes, mormente conhecidos e amigos, é falta de Amor cristão e humanamente imperdoável.

O desprezo. A indiferença, e principalmente a ingratidão, costuma doer mais que a doença, mesmo quando é grave e mortífera.



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal



terça-feira, 1 de dezembro de 2015

SOLILÓQUIOS COM O MEU EU - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA

 


 Dos prazeres peculiares do avô Alberto, um, era viajar só, para o litoral paulista.

Ia sozinho: sem mulher, sem filhos, sem netos e quase sem bagagem.

Ficava na casinha pitoresca de Itanhaém: entre a praia dos Sonhos e a secular Pedra do Anchieta.

Sentado à sombra refrescante do imponente alpendre ou na luxuriante vegetação do jardinzinho: lia, escrevia, reflectia e mantinha eruditos solilóquios.

Não eram bem solilóquios, mas conversações, travadas animadamente com o outro eu. Era espiritista – chegou a ser director de jornal exotérico, – mas abandonara, há muito, as sessões espíritas.

Asseverava que só personalidades fortes deviam assistir e participar; os outros, corriam sérios riscos de contraírem medos ou graves perturbações psicológicas. Nunca levou familiares ao Centro Espírita. Excepto uma neta.

Nas interessantes conversas com o outro eu, não havia espíritos nem mensagens do Além. Eram "diálogos", cavaqueava com ele próprio, em voz baixa ou em pensamento.

Comentava o que estava a ler. Dialogava pareceres. Criticava opiniões. Discorria sobre vários temas, que podiam ir da educação à violência no lar ou na via publica.

Nessas palestras, no intimo sossego da casa de praia – que as filhas adquiriram., – passava, enlevado, horas sem fim.

Ele próprio cozinhava. Quase sempre batatas cozidas com bacalhau. Prato que aprendera, na mocidade, com a mãe, em Portugal.

Por vezes – segundo dizia, – se as conversas descambavam para a política e temas prosaicos, logo as interrompia.

O outro eu era condescendente. Aceitava sem discutir, sem contrariar…


Desses curiosos colóquios, saiam interessantes ideias e meditações de elevada espiritualidade.
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Certa tarde de Janeiro, na casa de Alto de Pinheiros, confessou-me à puridade:
- Infelizmente não posso contar, a todos, o prazer que sinto nesses dias que passo sozinho. Não compreenderiam…Chamar-me-iam: doido. Mas é exercício salutar e enriquecedor…

Sei que o é. Quantas vezes surpreendo-me a dialogar com o outro eu.

Sempre que acontece, fico a compreender melhor o que é a vida, e o porquê de muitas coisas…

Só o isolamento e o silêncio, podem-nos dar esse sublime prazer.



HUMBERTO PINHO DA SILVA   -   Porto, Portugal
publicado por solpaz às 10:55

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

TERIA EXISTIDO MESMO UMA MULHER QUE FOI PAPA, OU MAIS PRECISAMENTE UMA PAPISA?










Luiz Carlos Nogueira








Michel de Montaigne, em seus Ensaios, I, XXI, informa que Stendhal escreveu por volta do ano 1830: “Quem poderia acreditar que ainda hoje existem em Roma pessoas que dão muita importância à história da papisa Juana?”. A verdade é que a história de que houve uma papisa com o nome de Joana, é controvertida.


Todavia, Alain Boureau (historiador, medievalista francês, diretor de estudos na EHESS.) em seu livro “La Papesse Jeanne” (Paris: Aubier, 1988), traduzido do francês por Guadalupe Loiro do Urquía, sob o titulo de A Papisa Juana, refere-se a isso como sendo uma fábula em que uma mulher de nome Joana, teria dissimulado seu sexo, para ocupar a cadeira de São Pedro; e que isso só teria sido descoberto porque, a Igreja teria cumprido uma formalidade de verificar a virilidade dos papas eleitos, pois dessa forma estariam evitando que escândalos desse tipo ocorressem. Mas esse historiador faz uma ressalva de que não encontrou nenhuma testemunha contemporânea que pudesse afirmar a veracidade e a realidade desse rito de constatação, sendo como escreveu que “o certo é que o sistema de crenças ao que pertence o rumor impede sua invalidação, pois qualquer refutação neste sentido se interpreta como denegação, e em consequência como confirmação. Desta maneira, Juana passa à eternidade graças à rumorologia.”.

Referiam-se alguns cronistas sobre as duas “cadeiras furadas”, que quando um papa era eleito, os dignitários da Igreja o conduziam para a Capela de São Silvestre, depois de havê-lo feito sentar-se numa primeira cadeira de mármore branco, localizada no pórtico da igreja, o novo pontífice deveria recitar o Salmo 113: “Deus eleva do pó o humilde, para fazer sentar-se acima dos príncipes!”.

A seguir, antes de ser consagrado o novo papa, os bispos e os cardeais, o colocavam na segunda cadeira, com as pernas separadas, devendo permanecer assim exposto, com seus hábitos abertos, para que fosse mostrada aos observadores a prova da sua virilidade, que deveria passar por uma segunda constatação por dois diáconos que se asseguravam disso pelo tato, a fim de que nenhuma outra aparência enganadora pudesse iludir aos olhos. Concluindo davam seus testemunhos: “habemus papam!!” — Em português: “temos um papa!!!”. E a assembleia respondia: “Deo Gratias”, como prova de reconhecimento.

Há quem diga que a expressão “Puxa-saco”, teria se originado desse tipo de serviço cerimonial.

Aliás, essa cerimônia me parece ridícula e inverossímel, no entanto, era o que os cronistas contavam. Mas dizem que tal cerimônia teria sido abolida depois do papa Leão X, quando as cadeiras teriam sido retiradas e levadas para a galeria do Palácio de Latrão.


Já o escritor Maurice Lachatre, em seu livro “Os Crimes dos Papas, Mistérios e Iniquidades da Corte de Roma” (São Paulo: Madras Editora Ltda, 2004), afirma que : “Durante muitos séculos, a história da papisa Joana havia sido reputada pelo próprio clero como incontestável; mas, com o andar dos tempo, os ultramontanos, compreendendo o escândalos e o ridículo que o reinado de uma mulher devia lançar sobre a Igreja, trataram de fábula digna de desprezo dos homens esclarecidos o pontificado dessa mulher célebre. Autores mais justiceiros defenderam, pelo contrário, a reputação de Joana e provaram, com testemunhos os mais autênticos, que a papisa havia ilustrado o seu reinado com o brilho das suas luzes e com a prática das virtudes cristãs.”

No livro citado, Lachatre escreveu que João Hus, Jerônimo de Praga, Wiclef, Lutero e Calvino, foram acusados pelo padre Labbé, de terem sido eles que inventaram a história da papisa Joana, mas que, no entanto, ficou provado que Joana já havia se instalado na Santa Sé, por volta de seis séculos antes do aparecimento desses homens ilustres, portanto, não era possível que eles tivessem inventado essa fábula. Também Mariano Escoto, que já escrevia há 50 anos antes deles, sobre a vida da papisa, não poderia ter extraído tal história das obras daqueles homens.

A fábula da papisa Joana se resume mais ou menos assim: em torno do ano de 850, uma mulher de origem inglesa, porém natural de Maguncia, teria tomado a aparência de um homem, para poder acompanhar seu amante. Como era muito estudiosa acabou ingressando na hierarquia da cúria romana, tendo sido posteriormente eleita papa. Mas seu pontificado durou pouco mais de dois anos, que foi interrompido por conta de um escândalo, porque ela não renunciou aos prazeres do sexo e acabou ficando grávida, sendo que acabou falecendo quando participava de uma procissão, que percorria o trajeto entre São Pedro do Vaticano e São João do Letrán, depois de ter dado a luz a um menino, que teria sido sufocado pelos padres que cercavam a mãe. Dizem que o cadáver da criança teria sido enterrado junto com a mãe, no lugar onde havia ocorrido o trágico acontecimento.  

Assim, Lachatre argumenta que a história sob o ponto de vista moral, tem que elevar-se acima dos interesses das religiões e seitas, tendo, por conseguinte, que fazer prevalecer a verdade não obstante tenha que despertar a cólera dos sacerdotes — considerando, inclusive, que no caso, a existência da célebre papisa Joana, ao contrário de ferir a dignidade da Santa Igreja Católica, enobrece-a, porque no seu discurso enquanto papisa, ela não adotou as astúcias, traições e crueldades dos pontífices.

Segundo esse escritor, uma das provas de que Joana existiu realmente, está no fato que a corte de Roma decretou a proibição de colocar o nome da papisa no catálogo dos papas.

Porém, escreveu Lachartre que quando a Catedral de Siena foi restaurada no século XV, foi mandado esculpir em mármore, os bustos de todos os papas até Pio II que era, o que na época, estava na “Cadeira de Pedro”, de forma que o busto da papisa Joana teria sido colocado entre os de Leão IV e Bento III, tendo sido ela o 108º pontífice, que teria adotado o nome de João VIII. Claro que se isso é verdadeiro, logo o busto da papisa foi destruído.



sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A MAIS CONVINCENTE CERIMÔNIA DE INICIAÇÃO










Luiz Carlos Nogueira









Desde que o ser humano tomou consciência da sua existência material aqui na Terra, começou a se preocupar e a indagar sobre finitude da vida e se haveria continuidade dela além-túmulo, pois repugna à sua razão a ideia do nada absoluto.

Sem nenhuma certeza da vida sempiterna, muitas pessoas, conforme recolhemos da Wikipédia, se deram às práticas  niilistas, como negação do desperdício da força vital diante da esperança vã de uma recompensa ou de um sentido para a vida, em oposição aos autores socráticos e, por conseguinte, à moral cristã, negando que a vida deva ser regida por quaisquer tipos de padrões morais, visando a um mundo superior, de sorte que isso faz com que o homem minta a si próprio, falsifique-se, enquanto vive a vida fixado numa mentira. Assim no niilismo não se promove a determinação de valores fixos, postulados, uma vez que tal determinação é considerada uma atitude negativa.

Segue-se, ainda, na Wikipédia, que o niilismo é: “De caráter fundamentalmente intelectual, o niilismo representou uma reação contra as antigas concepções religiosas, metafísicas e idealistas. Os jovens, retratados como rudes e cínicos, combateram e ridicularizaram as ideias de seus pais.”.

De outra forma, as pessoas se entregavam à prática do hedonismo, ou seja, doutrina que concorda na determinação do prazer como o bem supremo, finalidade e fundamento da vida moral, embora se afastem no momento de explicitar o conteúdo e as características da plena fruição, assim como os meios para obtê-la. Enfim, que se resume em dedicar-se ao prazer como estilo de vida.

Assim, as escolas iniciáticas foram criadas pelos antigos sacerdotes e hierofantes dos mistérios, principalmente do Egito Antigo, com a finalidade de transmitir através de iniciações aos sinceros buscadores da luz espiritual e do ocultismo, segundo eles, as verdades da vida e da morte.

Tais ensinamentos se baseavam na lendária morte (por assassinato) e ressurreição de Osíris, porém, a cerimônia, diferentemente das de hoje, era um ritual ao qual denominavam de ressurreição em vida, que na verdade era algo mais em benefício de uma pessoa viva do que propriamente um defunto.

O assassinato de Osíris, na verdade era uma simulação da qual todos os candidatos dispostos a participar nos Mistérios de Osíris, tinham que se submeter, para tornarem-se unos como o espírito de Osíris que foi o introdutor desses mistérios.

Os templos antigos eram planejados arquitetonicamente, de forma que possuíam dois amplos compartimentos, sendo um destinados aos cultos comuns e outro para os ensinamentos e iniciações nos mistérios secretos.

Os sacerdotes utilizavam-se da hipnose, passes mesméricos, fumigações e aspersões medicamentosas sobre o candidato, colocando-o dessa maneira em profundo transe como se estivesse morto. E enquanto o candidato jazia inerte, sua alma se desprendia do corpo ficando unida apenas pelo cordão místico de prata, que era visto apenas pelos iniciadores sensitivos videntes, senso que suas funções orgânicas do corpo eram conservadas, mesmo com todas as atividades vitais suspensas.

A finalidade desse tipo de iniciação era ensinar ao neófito, que não existe morte, pois esse era um meio mais claro e prático de demonstrar isso, fazendo-o passar pelo processo do que se chama morte, transpondo os limites da vida material e incursionando no outro lado da existência, ou no mundo espiritual.

O candidato estando em transe profundo, era colocado em um caixão feito para múmias, contendo inscrições hieroglíficas e pinturas, sendo depois, lacrado, como se tivesse sido de fato, assassinado.

Esgotado o tempo marcado para o transe, o caixão era aberto, fazendo por meios adequados, que o candidato fosse despertado. Assim essa trama alegórica indicava a ressurreição mística de Osíris, que na verdade significava a verdadeira ressurreição do candidato iniciado nesses Mistérios.

Após o candidato haver passado por essa prova (em transe) e estar desperto, era levado para receber os primeiros raios do Sol em sua face.

Assim é que, como expertises na prática do hipnotismo, alguns sacerdotes e todos os Sumos-sacerdotes egípcios, podiam induzir as pessoas ao sono cataléptico, como se mortas estivessem. Ao mesmo tempo podiam manter desperta a mente do candidato, e fazê-lo passar por inúmeras experiências fora do corpo físico nas dimensões do mundo espiritual e depois fazê-lo lembrar de tudo, quando voltasse ao estado normal de consciência.















quinta-feira, 15 de outubro de 2015

PARA QUE LERMOS E ESTUDARMOS TANTO, SE COM O TEMPO ESQUECEREMOS TUDO?









Luiz Carlos Nogueira








Esses dias eu estava pensando se tudo quanto já li e continuo lendo, o estudei com aplicação, às vezes já não consigo mais me recordar com nitidez, então para que teria servido e serve tudo isso?

Pois bem, hoje, fazendo uma limpeza nas gavetas da minha escrivaninha, achei um texto que não traz o nome do seu autor, mas que diz em outras palavras, justamente que não devermos nos inquietar por não conseguirmos manter mais em nossa memória, tudo quanto já lemos e estudamos, mesmo até os bons ensinamentos, pois, nesse caso — sentir é mais importante do que memorizar.

Assim prossegue o texto, contando uma estória do discípulo que pergunta ao seu mestre, num antigo mosteiro chinês, por que temos que ler, estudar e refletirmos sobre a sabedoria, já que não conseguimos memorizar tudo, retendo o que o tempo desmancha, como se fosse uma apagador invisível sobre as letras escritas em uma lousa?

Depois de algum tempo em silêncio, fitando o discípulo, o mestre pediu-lhe que apanhasse um cesto de junco, sujo e esquecido em um canto, e fosse até ao riacho enchê-lo de água e depois o trouxesse até ele.

Ante ao estranho pedido, não obstante, ensimesmado o discípulo obedeceu. Assim, chegando de volta ao mestre, como o cesto era cheio de furos, a água se escorreu ao longo do caminho, de sorte que nada restou e o mestre perguntou: então, meu filho, o que você aprendeu?

Um pouco atônito, respondeu-lhe o discípulo: ora, aconteceu o que eu já havia aprendido, ou seja, que um cesto de junco com furos, não pode reter a água.

De novo o mestre pediu ao discípulo que repetisse o que havia feito. E não podia ter acontecido outra coisa, senão que o discípulo voltasse novamente com o cesto vazio. E o mestre tornou a repetir a mesma pergunta: então, meu filho, o que você aprendeu? Respondeu-lhe o discípulo com as mesmas palavras ditas na primeira vez: um cesto de junco furando não pode reter a água.

E novamente o mestre pediu ao discípulo para executar a mesma ação por umas vinte vezes, descendo cem degraus da escadaria do mosteiro até ao riacho e de lá voltando carregando o cesto de junco furado, com a água que derramava pelo caminho. Isso fez com que o discípulo ficasse muitíssimo cansado e aflito, até que o mestre fê-lo parar e lhe perguntou novamente; então, meu filho, e agora, o que você aprendeu?

O discípulo desanimado olhou para dentro do certo e aí notou com visível admiração: o cesto está limpo!

Sim, estava limpo, pois, pelo fato da água escorrer pelos buracos acabou lavando-o, pelo que o mestre concluiu seu ensinamento:


Não é importante que não consigamos memorizar todos os ensinamentos obtidos durante a nossa vida, pois, nesse processo de nos conectarmos muitas e muitas vezes com a sabedoria, nossa mente e nosso coração vão se depurando. De tal sorte, nossos preconceitos vão se abrandando e a intolerância dá lugar à lucidez. Todo o pensamento destrutivo cede lugar à criatividade. As competições sem fundamentos cedem lugar à cooperação, e nesse processo todo, nós vamos trabalhando no tempo e sendo de forma contínua, tocados pela sabedoria. Todos aqueles aspectos grotescos vão se limpando, tirando-nos das sombras e nos tronando mais humanos.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

"COGITO ERGO SUM". MAS ONDE ENCONTRO EU?









Luiz Carlos Nogueira






Uma das primeiras descobertas do ser humano, é de que sente ter um EU separado, que pensa, interage e reponde aos estímulos externos. O cogito ergo sum (penso, logo existo), frase de René Descartes, também conhecido como Renatus Cartesius (filósofo, físico e matemático francês da Idade Moderna) que se notabilizou por suas inferências no campo das ideias filosóficas, principalmente no que diz respeito ao nosso EU, dando-lhe a significação de se penso, “eu sou”.

Segundo Ângela Maria La Sala Batà, autora de vários livros de Psicologia Espiritual, que se formou no ambiente espiritual da Escola Arcana de Alice A. Bailey e na atmosfera das pesquisas psicológicas de Roberto Assagioli, também autora de vários trabalhos nessa área, que muito tem contribuído para os ensinamentos esotéricos aplicados à terapia dos desajustamentos psíquicos e das enfermidades nervosas, diz que esse “eu” separado, um ser pensante, tem uma significância importante e não é algo mau por si só e nada tem de nocivo, porque indica um progresso se confrontado com a vaga consciência das massas. (O Caminho do Aspirante Espiritual).

O grande problema, diz a escritora, é que o homem ao confrontar-se com a descoberta da sua individualidade, se sente inicialmente inflado de orgulho e com força e superioridade, acreditando ser o único a sentir a vida e a ter a percepção da sua própria existência, acreditando-se, por isso, diferente, isolado e separado dos demais.

É desse sentimento que nascem todos os defeitos e vícios, transformando a mente num perigoso mecanismo que suscita o egoísmo, o orgulho, a presunção, a ambição, a crítica, a dureza, a intolerância, o desprezo e todos os demais sentimentos deletérios para vida em sociedade.

Alice Bailey, sua mestra, in Trattato di Magia Bianca, afirma que “A mente concreta é sempre egoísta, egocêntrica e expressa a ambição pessoal que traz dentro de sí o gérmen de sua destruição.”

De tal sorte, La Sala Batà orienta, para que o homem deva passar pela fase de desenvolvimento da mente inferior, e atravessar o estágio da polaridade mental, superando os perigos dos quais toma conhecimento, combatendo-os. Para isso terá que desenvolver a mente para torná-la mais poderosa e eficiente, buscando o equilíbrio e discernimento das dificuldades. Ela diz que “Pouco a pouco aprenderá a utilizar a mente, e mesmo a voltá-la para o interior, tornando-a um verdadeiro instrumento da Alma, que tenta comunicar-se com a personalidade.”.

Com vista ao MAS ONDE ENCONTRO EU?”, revivamos então, a história do menino que vivia distraído e esquecendo-se das coisas, pois nunca conseguia encontrar nada do que buscava, até que um dia teve uma ideia e resolveu pô-la em prática. Tomou um papel e um lápis e pôs-se a relacionar o que tinha que fazer e ter mãos, para que nada ficasse esquecido.

Ao acordar pela manhã, apanhou a sua lista de afazeres e coisas as quais tinha que levar consigo. Porém, quando já estava saindo, pôs-se a chorar. Sua mãe ao vê-lo daquele jeito, perguntou-lhe assustada: mas o que é que lhe aconteceu? E o menino, imediatamente respondeu: tudo quanto eu precisava achar, eu achei, exceto uma coisa. E qual é essa coisa redarguiu sua mãe. Eu...MAS ONDE ENCONTRO EU?

Mas qual é o sentido dessa história?


Essa é a grande questão, pois vermos o mundo, as coisas, as pessoas e tudo o que nos cercam, com os olhos de uma criança, nos coloca diante dos grandes desafios deixados para trás e que nós não os resolvemos e o esquecemos, mas, porém, que voltarão à nossa lembrança, fazendo-nos perdermo-nos do nosso EU, que deve ser é a nossa própria referência, ou tudo que concebemos, temos e herdamos de nós próprios. Assim, quando encontramos os pedaços que distorcem os nossos valores, começamos a resgatar o nosso EU, retificando-o de forma que possamos viver mais conscientes e melhor. Somente assim a criança que morava em nós deixará de chorar e perguntar:  MAS ONDE ENCONTRO EU?