sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

O PAVIMENTO DE MOSAICO – INTERIOR DO TEMPLO MAÇÔNICO











Luiz Carlos Nogueira







Segundo os Rituais Maçônicos, mais do que a Bíblia Sagrada, neles podemos encontrar mais comentários acerca do Templo Maçônico, que seria uma réplica do Templo do Rei Salomão, cuja construção não há evidências arqueológicas de que o mesmo teria sido erigido em Jerusalém há aproximadamente 3.000 anos.

Como é de conhecimento de muitos leitores da Bíblia e da História Antiga, Davi, Rei de Israel, tencionava construir um templo dedicado ao Eterno (Deus ou Grande Arquiteto do Universo para os maçons). Para essa finalidade acumulou um imenso tesouro, mas como acabou se desviando do caminho da virtude, tornou-se indigno da proteção do G\A\D\U\, cabendo depois ao Rei Salomão, seu filho, concretizar esse projeto.

Salomão, porém, antes de começar a construção, deu a notícia a Hirão, rei de Tiro, que lhe designou Hiram, considerado o mais célebre arquiteto daqueles tempos, para que elaborasse o levantamento das necessidades e também a planta do templo, assim como para que dirigisse os operários.

Não vamos contar aqui toda a história bíblica sobre o Rei Salomão e o seu Templo, porquanto a intenção é apenas dar um enfoque a uma das alegorias existentes hoje nos Templos Maçônicos, que no caso trata-se do Pavimento de Mosaico, ou seja, o quadrado colocado ao centro, semelhante a um tabuleiro de xadrez, que representa o local por onde e sobre o qual, andava o Sumo Sacerdote oficiante das cerimônias daquele Templo dedicado ao Altíssimo.

Para alguns autores o piso xadrez preto e branco já existia nos templos desde os tempos do antigo Egito. Porém, ele não é simplesmente um artifício decorativo, porque encerra todo um significado esotérico, que se tornou um dos símbolos mais identificadores de um Templo Maçônico, pois é também o piso de todos os rituais, ainda que com ligeiras diferenças de dimensão física, mas não no sentido espiritual. É nesse piso uma área onde ocorre o coroamento iniciações, dando significação à emblemática vida humana, pelas cores do xadrez em preto e banco, para lembrar-nos da existência do bem e do mal.


Albert Pike, em livro Morals and Dogma (pg 19), explicou que: “O pavimento, alternadamente negro e branco, simboliza, intencionalmente ou não, os Princípios do Bem e do Mal do credo Egípcio e Persa. É o combate entre Miguel e Satanás, entre os Deuses e os Titãs, entre Balder e Lok, entre luz e sombra, que é a escuridão; Dia e Noite; Liberdade e Despotismo; Liberdade Religiosa e Dogmas Arbitrários de uma Igreja que pensa por seus seguidores,[...]”  

Essa simbolização é comparável ao símbolo “Yin-Yang”



>> Figura : Símbolo do "Yin-Yang" .


O símbolo do "Yin-Yang são considerados opostos. Yin representa eternidade, a escuridão, o feminino, o lado esquerdo do corpo, etc. Yang é seu oposto, e representa a história, a luz, o masculino, o lado direito do corpo, etc." [Phillip G. Zimbardo e Floyd L. Ruch, Psycology and Life (Psicologia e Vida), 1977, nova edição, pg 317] (Google Translation)

"Yang é masculino, positivo e representado pelo sol. Yin é feminino, negativo e representado pela lua." [Paul E. Desautels,The Gem Kingdom, pg 237]. (Google Translation)

A origem do símbolo tem raízes no século quarto antes de Cristo, ou quem sabe até antes, os desenhos dos homens das cavernas, também dão pistas disso, como também  está identificada com as religiões filosóficas do oriente, tais como o confucionismo, o budismo e o taoismo. [Claire Chambers, The SIECUS Circle: A Humanist Revolution, 1977, pg. V]. (Google Translation)

Mas por que foi dado tanto destaque ao piso de xadrez no Templo Maçônico?


Compulsando vários rituais maçônicos, vamos encontrar a seguinte resposta: "O quadrado é calçada para o Sumo Sacerdote andar em cima". Agora não é apenas o sumo sacerdote judeu de séculos atrás, que é aqui referido, mas o membro individual do grupo. Porque cada maçom pretende ser o Sumo Sacerdote do seu templo pessoal e fazer dele um lugar onde ele e a Divindade podem-se reunir. Pelo simples fato de estar neste mundo dualista cada ser vivo, seja um maçom ou não, caminha sobre o pavimento quadrado misturado do bem e do mal em cada ação de sua vida, de modo que o chão é o símbolo de uma verdade filosófica elementar, comum a todos nós. Mas, para nós, as palavras "andar em cima" implica muito mais do que isso. Eles querem dizer que aquele que aspira a ser o dono do seu destino e capitão da sua alma deve caminhar sobre esses opostos no sentido de transcender e dominando-os, de tripudiar sobre sua natureza inferior sensual e mantê-la sob seus pés em sujeição e controle. Ele deve tornar-se capaz de subir acima do bem e do mal, para ser superior e indiferente aos altos e baixos da fortuna, as atrações e os medos que regem os homens ordinários e balançam seus pensamentos e ações desta ou daquela maneira. Seu objetivo é o desenvolvimento de sua inata potência espiritual, e é impossível que estes devam desenvolver em tanto tempo como ele é tão governado por suas tendências materiais e as emoções flutuantes de prazer e dor que eles dão à luz a. É pelo aumento superior a estas e alcançando serenidade e equilíbrio mental em qualquer circunstância em que para o momento em que ele pode ser colocado, que um maçom verdadeiramente ‘caminha sobre’ o piso de xadrez de existência e as tendências conflitantes de sua natureza mais material.

domingo, 23 de novembro de 2014

Se Nada Vem do Nada, então como pode a Ordem Sair do Caos?










Luiz Carlos Nogueira












Diziam os antigos filósofos que Ex Nihilo Nihil fit, ou seja, nada vem do nada, então como puderam filosofar sobre o Ordo Ab Chao (A ordem saída do caos)?

A máxima filosófica de que nada vem do nada, pode significar que o nada estaria atribuindo a si mesmo o poder de se autogerar? Ou seja, gerar-se a si mesmo? E assim possibilitando a afirmativa filosófica sobre a ordem saída do caos? Qual caos se nada existia?

Por conta dessas especulações, Gottfried Wilhelm Leibniz[1], filósofo alemão, chegou a indagar “por que existe algo e não apenas o nada?” porque de outra forma se não houvesse o nada – não haveria a necessidade de explicar nada, nem haveria alguém para pedir explicação.

Mas é a ideia do nada que assombra o ser, conforme disse Jean-Paul Sartre em sua obra “O Ser e o Nada”[2], porque para os existencialistas como Martins Heidgger[3], o que  angustia o ser e lhe causa ansiedade, é pensar que a nossa existência sai do abismo do nada e acaba no nada da morte, e nisso está o temor — o caminho para o não ser.

Todavia, o filósofo judeu Moisés Maimônides[4] afirmava que Deus criou o mundo do nada, o que ele não queria que significasse dizer que o nada estaria na categoria de entidade – algo equiparável ao divino, mas somente ele quis informar que Deus não criou o mundo a partir de alguma coisa espiritual ou concreta, como também parece estar sustentado pelo festejado teólogo cristão Tomás de Aquino.

E Maimônides explica as três teorias diferentes sobre a origem do universo:

“A primeira teoria, sustenta que o Universo inteiro, à exceção de Deus, foi por ele trazido à existência a partir da não-existência. No início somente Deus havia, e mais nada; nem anjos, nem esferas celestes, nem o quanto nelas existiria. Ele então produziu do nada todas as coisas existentes, tais como são, por Sua vontade e desejo. Mesmo o tempo pertence às coisas criadas, pois o tempo depende do movimento, isto é, de uma acidente sobre as coisas que se movem. E as coisas de cujo movimento o tempo depende são, elas mesmas, seres criados, que passam da inexistência à existência. Afirmamos que Deus existe antes da Criação do Universo, embora o verbo existir implique a noção do tempo. Acreditamos também que Ele existe por um espaço de tempo infinito antes da Criação do Universo, mas, neste caso, não queremos dizer tempo no seu sentido concreto. Utilizamos o termo para significar algo análogo ou semelhante ao tempo, pois este é, indubitavelmente, um acidente e, de acordo com a nossa consideração, um dos acidentes criados — tais como a negrura ou a brancura — não é uma qualidade, mas um acidente ligado ao movimento. Isto deve ser claro para quem compreendeu o que Aristóteles afirmou sobre o tempo e sua real existência.
Vamos expor aqui uma ideia que, ainda que marginal à nossa abordagem, poderá ser útil no decurso de nossa discussão. Muitos cientistas não sabem realmente o que é o tempo, e homens como Galeno ficaram perplexos acerca deste assunto que questionaram se o tempo é real ou não. A razão para este dúvida por ser encontrada no fato de o tempo se um acidente de um acidente. Acidentes estão diretamente ligados a corpos materiais, como as cores e os sabores, são facilmente compreendidos e formam-se noções corretas a respeito deles. No entanto, há acidentes ligados a outros acidentes, como o brilho da cor, a inclinação ou a curvatura de uma linha; destes é muito difícil formar uma noção correta, principalmente quando o acidente que forma o substrato para outro acidente não é constante, mas variável. Ambas as dificuldades estão presentes na noção do tempo: ele é um acidente do movimento, que, por sua vez, é um acidente do objeto movido. Além disso, não é uma propriedade fixa. Ao contrário, sua condição verdadeira e essencial é não permanecer no mesmo estado nem por dois momentos consecutivos. Esta é a fonte da ignorância acerca da natureza do tempo.
Consideramos o tempo uma coisa criada: vem à existência assim como os demais acidentes e as demais substâncias que formam os substratos para os acidentes. Por esta razão, pelo fato de o tempo pertencer às coisas criadas, não se pode dizer que Deus produziu o Universo no início. Veja bem: este argumento serve para quem não compreende sua incapacidade de refutar as fortes objeções levantadas contra a teoria da Creatio ex nihilo. Se você admitir a existência do tempo antes da Criação, será compelido a aceitar a teoria da Eternidade do Universo — pelo fato de o tempo se tratar de um acidente que requeira um substrato. Então terá que admitir que algo (junto a Deus) existiu antes da Criação do Universo, posição à qual é seu dever se opor.” [...] (págs.105 a 107)

“A segunda teoria, e a teoria dos filósofos, cujas opiniões e trabalhos nos são conhecidos, é a seguinte: é impossível que Deus produza tudo do nada ou que reduza tudo a nada. Em outras palavras, é impossível que um objeto consistente de matéria e forma pudesse ser produzido quando a matéria era absolutamente inexistente ou que pudesse ser destruído de tal modo que a matéria passasse a não existir mais. Dizer que Deus pode produzir uma coisa do nada ou reduzir uma coisa a nada é, de acordo com a opinião desses filósofos, o mesmo que afirmar que Ele poderia levar uma substância a ter, simultaneamente, duas propriedades opostas, ou de criar outro ser semelhante a Ele, ou se transformar em corpo, ou ainda, produzir um quadrado cuja diagonal fosse igual a um de seus lados, ou coisas igualmente inviáveis. Os filósofos, portanto, acreditam que não é um defeito no Ser Supremo a não-criação de coisas impossíveis, pois a natureza do que é impossível é constante — independe da ação de um agente e, por esta razão, não pode ser modificada; do mesmo modo que, segundo eles, não há defeito na grandeza de Deus por Ele ser incapaz de produzir uma coisa do nada, pois eles consideram isto uma das impossibilidades. Consequentemente, admitem que uma determinada substância coexiste com Deus pela Eternidade, de tal forma que nem Deus possa existir sem ela, nem ela sem Deus. No entanto, não defendem que a existência desta substância seja equivalente à de Deus, pois Deus é a causa de sua existência. A substância está para Deus assim como a argila está para o ceramista ou o ferro, para o forjador, Deus pode fazer com isto o que lhe agrade: ora forma Céus e Terra, ora, qualquer outra coisa. Aqueles que sustentam esta visão assumem também que os Céus são transitórios, que vieram à existência — mas não do nada — e podem deixar de existir, embora não possam ser reduzidos a nada. Os Céus são transitórios do mesmo modo que os indivíduos, entre os seres vivos: são produzidos de uma mesma substância existente e são novamente reduzidos à mesma parte da substância, esta permanece existindo. O processo de gênese e destruição e, no caso dos Céus, o mesmo que em qualquer ser terrestre.
Os adeptos desta teoria se subdividem em várias escolas, cujas opiniões e princípios é desnecessário discutirmos aqui, mas o que mencionei é comum a todos eles. Também Platão sustenta a mesma opinião.
Aristóteles conta, em sua obra Física (Acrosis), que, de acordo com Platão, os Céus são transitórios. Esta visão é tratada também em seu livro Timaeus. Sua opinião, sem dúvida, é discordante da nossa crença. Somente pessoas superficiais e descuidadas admitem, de forma equivocada, que Platão acredita no mesmo que nós. Enquanto sustentamos que os Céus são criados do Nada Absoluto, Platão acredita que os Céus foram formados de algo.” (págs. 107 a 108)

“A terceira teoria é a de Aristóteles, seus discípulos e comentaristas. Aristóteles argumenta, assim como os adeptos da segunda teoria, que um corpo não pode ser produzido sem uma substância corpórea. Todavia, ele vai mais longe e defende que o Céu é indestrutível. Ele afirma que o Universo, em sua totalidade, nunca foi diferente e nunca se modificará: os Céus, que são um elemento permanente do Universo e não estão sujeitos à gênese nem à destruição, têm sido sempre assim. O Tempo e o movimento são eternos, permanentes e não possuem princípio nem fim. O mundo sublunar, que inclui os elementos transitórios, tem sido sempre o mesmo, porque a matéria-prima é eterna e simplesmente se combina sucessivamente de diferentes formas; quando uma forma é removida, outra é assumida. Portanto, toda esta organização, tanto lá em cima quanto aqui embaixo, nunca é perturbada ou interrompida, e nada é produzido fora das leis ou do curso normal da Natureza. Ele ainda diz — embora não nestes termos — que considera impossível para Deus modificar Sua Vontade ou conceber um novo desejo, que Deus produziu este Universo em sua totalidade por Sua Vontade, mas não do nada. Aristóteles considera impossível admitir que Deus mude Sua Vontade ou conceba um novo desejo, seria como acreditar que Ele é inexistente ou que Sua Essência é mutável. Consequentemente, conclui-se que este Universo tem sido sempre o mesmo desde o passado e será o mesmo eternamente. Esta é uma mostra completa das opiniões daqueles que consideram que a existência de Deus, a Primeira Causa do Universo, foi estabelecida por meio de demonstração. Mas seria desnecessário mencionar as opiniões daqueles que não reconhecem a existência de Deus, porém acreditam que o estado de existência das coisas é o resultado da combinação acidental e separação dos elementos e que o Universo não tem um Legislador ou governador. Esta é a teoria de Epícuro e sua escola, e de filósofos semelhantes, segundo Alexandre de Afrodísias. Seria supérfluo repetir seus pontos de vista, já que a existência de Deus já ficou demonstrada, enquanto a sua teoria e construída sobre uma base comprovadamente insustentável. É igualmente inútil corroborar a correção dos seguidores da segunda teoria quando afirmam que os Céus são transitórios, pois, ao mesmo em que acreditam na Eternidade do Universo, adotam aquela tória. Assim, é indiferente para nós se acreditam que os Céus são transitórios e que somente sua substância é eterna ou que os Céus são tidos como indestrutíveis, de acordo com a visão de Aristóteles. Aqueles que seguem a Lei de Moisés e do Patriarca Abraão — e todos aqueles que partilham de teorias semelhantes — assumem que nada é eterno exceto Deus e a teoria do Creatio ex nihilo não inclui qualquer coisa que seja impossível, enquanto alguns pensadores ainda consideram isto uma verdade estabelecida.” [...] (págs. 108 a 109)



[1] LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Philosophical Papers and Letters, vol. 2. Chicago: University of Chicago Press, 1956 (Tradução via Google)
[2] SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. Petrópolis: Vozes, 2005.
 [3] HEIDGGER, Martin. Introdução à Metafísica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1999
[4] MAIMÔNIDES. O Guia dos Perplexos, parte 2, Landy Livraria Editora e Distribuidora Ltda. São Paulo, 2003.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O QUE É A VIDA?










Luiz Carlos Nogueira











Hoje cedo um amigo ligou perguntando-me se eu dispunha de algum texto falando sobre o que é a vida, porque ele teria que apresentar um trabalho para um grupo interessado, mas cujo tempo de exposição estaria limitado em torno de uns 20 minutos.

Pois bem, tentei rebuscar nos arquivos da minha já desinteirada memória, algo que pudesse lhe socorrer nessa incumbência. Nada, porém, me aflorou à mente, que não fossem extensos e complexos ensaios ou obras de demoradas exposições, tal como “O Fenômeno Humano”, escrito pelo jesuíta francês Pierre Teilhad de Chardin (1881-1955), um dos grandes gênios do século XX, que era geólogo, paleontólogo e pensador autor de inumeráveis escritos sobre a condição humana e, portanto, o que obrigou-o a abordar a questão sobre o surgimento da vida em nosso planeta. Para lê-lo é necessário muito tempo e disposição, tempo, aliás, que Aurélio Augustinus (Agostinho de Hipona, Bispo de Hipona) o Santo Agostinho assim considerado pelas Igrejas Católica Romana e Anglicana, e também importante teólogo e doutor dessas Igrejas, em seu livro “Confissões” escreveu: “Que é, pois, o tempo? Se ninguém me pergunta, eu sei; mas se quiser explicar a quem indaga, já não sei.[...]”
                  
As teorias mais aceitas é que o planeta Terra teria tido início da sua formação há aproximadamente 4.567 milhões de anos, através de várias nuvens de gás e poeira cósmica em alta rotação, que teria dado origem ao nosso Sistema Solar. Assim a vida teria começado na terra há pouco mais de 3600 milhões de anos, no período Arqueano, pois como foram encontrados vestígios de vida nesse período, sua formação, forçosamente deve ter sido, necessariamente, anterior.

Mas aí eu penso que há dois tempos na existência. Um tempo é o de Deus, que na verdade não deve existir — porque Deus É, e para os que acreditam Nele, a melhor explicação que me parece espiritualmente lógica é como está escrito na Bíblia: “Vivemos, nos movemos e temos o nosso ser em Deus” (ver Atos dos Apóstolos 17:28:,  "Porque nele (em Deus) vivemos, e nos movemos, e existimos;...").

Assim, o outro tempo que existe é o para nós seres humanos, que vemos a criação de Deus se completando e evoluindo a todo instante, embora tudo já estivesse pronto e acabado no tempo de Deus. Não parece uma loucura? Dá para entender isso? Só nós temos a necessidade de medir o tempo e o espaço para as nossas realizações no plano material.

Para Chardin, do anorgânico surge o orgânico e vivo, o que significa em outras palavras, que o anorgânico não se encontra em um estágio de inconsciência total, mas possui um certo grau de consciência. Assim ele explica em O fenômeno humano, que a Terra, há muito tempo atrás, era bastante fria e provavelmente envolvida numa camada aquosa donde apenas emergiam os primeiros rebentos dos futuros continentes, teria parecido deserta e inanimada a um observador munido de nossos mais modernos instrumentos de investigação. No entanto, naquele momento, formas de vida infinitamente simples e elementares começaram a surgir, possibilitando o nascimento de uma “nova ordem”: a Biosfera. É nela que se chegou depois de longo processo evolutivo: à gênese da vida.


Como se pode ver, não há como resumir essa questão. Só um estudo muito aprofundado poderá dos dar algumas respostas à luz da ciência, embora calcadas na espiritualidade. Para mim, se há milagres, um e o maior deles é o surgimento da vida e o outro — é a inteligência e a razão que Deus dotou ao ser humano. E a vida — eu considero um absurdo maravilhoso, que o Homem não desvendou, mas apenas pode supor o por que dela, construindo mitos, religiões e filosofias, nada conclusivas.

terça-feira, 18 de novembro de 2014

FERNÃO CAPELO GAIVOTA - FILME DUBLADO

Fernão Capelo Gaivota — baseado no livro de Richard Bach que foi piloto da Força Aérea Americana entre um curto período de paz entre as guerras da Coréia e do Vietnã. Após dar baixa, resolveu dedicar-se à literatura. Seu primeiro sucesso veio com Fernão Capelo Gaivota, publicado em 1970. Através da história de Fernão Capelo, Bach transmitiu uma lição positiva de vida que, quatro décadas depois, continua emocionando leitores de todas as idades e nacionalidades. O livro é uma alegoria sobre a importância de se buscar propósitos mais nobres para a vida À primeira vista, é a história de uma gaivota um tanto incomum, diferente das outras de sua espécie, que não se preocupa apenas em conseguir comida. Fernão Gaivota está preocupado com a beleza de seu próprio voo, em aperfeiçoar sua técnica e executar o mais belo dos voos. Fernão Capelo Gaivota é um livro que fala sobre a sociedade humana e nossos dogmas, conceitos, restrições, e o mais importante, a busca pela perfeição.
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sábado, 4 de outubro de 2014

Fábula (iniciática) contada por Antoine de Saint-Exupéry na sua obra “O Pequeno Príncipe”, que instiga buscar a evolução da consciência humana e o desenvolvimento da espiritualidade.













Luiz Carlos Nogueira










Na Bíblia Sagrada, Jesus teria dito em Mateus 18:3, que “[...] se não vos converterdes e não vos fizerdes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.”

De fato essa é uma referência válida, porque as crianças veem as coisas de forma diferente, simples e sem malícia, o que, aliás só a mente dos adultos é capaz de engendrar para algum proveito próprio.  Digo isso para mostrar que na estória do Pequeno Príncipe (Principezinho - para os nossos irmãos de Portugal), o autor narra que quando tinha 6 anos havia visto em um livro sobre Floresta Virgem, a gravura de uma jiboia que tinha engolido algum animal inteiro, e no qual explicava que as jiboias engolem sem mastigar a presa inteira, e depois ficam imóveis e dormem por 6 meses enquanto acontece a digestão.

Assim o autor resolveu desenhar a jiboia com o animal que havia engolido. O desenho ficou assim:

Desenho 1





 Após terminar a sua “obra-prima”, mostrou-a às pessoas grandes, perguntando-lhes se o seu desenho lhes causava medo.  Mas as pessoas adultas lhe respondiam; “Por que é que um chapéu faria medo?”

Ora, é claro que para o menino-autor o seu desenho não representava um chapéu, mas sim uma jiboia digerindo um elefante, o que o obrigou a redesenhar mostrando o que havia no interior da jiboia, para que as pessoas grandes pudessem compreender. “Elas tem sempre necessidade de explicações” disse o autor do desenho. O segundo desenho ficou assim:

Desenho 2




A partir daí disse o autor: “As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à geografia, à história, ao cálculo, à gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho número 1 e do meu desenho número 2. As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.”

“Tive pois de escolher uma outra profissão e aprendi a pilotar aviões. Voei, por assim dizer, por todo o mundo.E a geografia, é claro, me serviu muito. Sabia distinguir, num relance, a China e o Arizona. É muito útil, quando se está perdido na noite.”

“Tive assim, no correr da vida, muitos contatos com muita gente séria. Vivi muito no meio das pessoas grandes. Vi-as muito de perto. Isso não melhorou, de modo algum, a minha antiga opinião.”

“Quando encontrava uma que me parecia um pouco lúcida, fazia com ela a experiência do meu desenho número 1, que sempre conservei comigo. Eu queria saber se ela era verdadeiramente compreensiva. Mas respondia sempre: "É um chapéu". Então eu não lhe falava nem de jibóias, nem de florestas virgens, nem de estrelas. Punha-me ao seu alcance. Falava-lhe de bridge, de golfe, de política, de gravatas. E a pessoa grande ficava encantada de conhecer um homem tão razoável.”

Aprendendo a perceber as coisas e os fatos.
Ora, o que Antoine de Saint-Exupéry quis mostrar é que as pessoas devem se tornar capazes de perceberem as coisas e os fatos, para além da comum estupidez da inteligência humana, que apenas se reduz às coisas sociais, convertendo-se em instrumento de poder e de ilusão de impotentes, além de matar a inteligência e as habilidades que estão se despertando em cada ser humano, ainda que se mostre um elefante na barriga de uma jiboia, não será por isso que se fará desse ser humano um componente social aceitavelmente idiota.
A lição ontológica.
E o pequeno príncipe, expressa de maneira aparentemente ingênua, a lição ontológica do autor, sem dispensar a abordagem política, ética e econômica. E assim, se referindo ao personagem Sr. Carmesim, ele observa que esse senhor que “nunca respirou uma Flor”, que “nunca olhou para uma estrela”, que “nunca amou pessoa alguma”, que “mais não faz do que adições” e que se considera “um homem sério”. Portanto, não é necessário muito esforço para perceber que a vida desse homem, resume-se em querer ter cada vez mais e mais — ou seja, sua vida resume-se apenas no cálculo matemático de somar a materialidade; não há para ele outra dimensão ontológica. De tal sorte, quem não respira, não vê, não ama - só calcula, não tem vida interior própria do ser humano; sua paisagem interna é árida e sem luz. E o dia todo repetindo, observa o pequeno príncipe: “Sou um homem sério! Sou um homem sério!” e isso fá-lo inchar de orgulho. Mas não é um homem, é um cogumelo!”. Em outras palavras, o pequeno príncipe achou o Sr. Carmesim um estúpido — morto espiritualmente para a assimilação do sentido das coisas.

Ora, mas que significado quis dar o pequeno príncipe quando disse “nunca respirou uma Flor”? Há diferença entre “cheirar” e “respirar”. Por exemplo, cheirar uma rosa é colocar-se em relação a ela exteriormente — esse ato dá-me o cheiro, mas não a rosa inteiramente; enquanto respirar a rosa significa interiorizá-la intelectualmente, o que significa possuir a intuição intelectual do que é uma rosa em relação a mim. O simples cheiro de uma rosa — em si mesmo — não expressa o que ela é.
A viagem iniciática para buscar a expansão da consciência.
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Embora sem compreender exatamente o que o unia a uma flor, o pequeno príncipe resolveu deixar o seu pequeno planeta e viajar pelo espaço e tempo, de tal forma que essa viagem iniciá-lo-ia na forma externa das relações políticas, até que por fim encontrasse alguém que o iniciaria na forma interna ou interiorizada das mesmas relações. Seria um movimento para alargar-lhe e aprofundar-lhe no ato de inteligência. A finalidade era de arrumar ocupações e de se instruir.
O asteroide 325 - O rei e o poder político.
Assim, o pequeno príncipe visitou seis asteroides mais próximos (de números 325 a 330), sendo que o primeiro deles (325) era habitado por um rei (monarca absoluto e universal), o protótipo do poder político exercente de uma relação exterior, de apenas sua vontade imperativa sobre os seus súditos, que para ele, todos os seres humanos do universo o eram. Com relação a esse rei, o pequeno príncipe constatou que embora suas ordens fossem razoáveis, “fazia questão fechada que sua autoridade fosse respeitada. Não tolerava desobediência”. “Eu não tolero indisciplina”, dizia o rei.
Todavia, deve-se tirar disso a lição de que um rei pode ser converter num tirano se não for inteligente e dar ordens não factíveis. É princípio da prudência que deve ser posto em prática, por exemplo, explicou o rei quando o pequeno príncipe ousou solicitar do rei uma graça:
“- Eu desejava ver um pôr-do-sol ... Fazei-me esse favor. Ordenai ao sol que se ponha. . .

- Se eu ordenasse a meu general voar de uma flor a outra como borboleta, ou escrever uma tragédia, ou transformar-se em gaivota, e o general não executasse a ordem recebida, quem - ele ou eu - estaria errado?

- Vós, respondeu com firmeza o principezinho.

- Exato. É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar, replicou o rei. A autoridade repousa sobre a razão. Se ordenares a teu povo que ele se lance ao mar, farão todos revolução. Eu tenho o direito de exigir obediência porque minhas ordens são razoáveis.

O vaidoso do segundo planeta ou do asteroide 326.

Nesse outro pequeno mundo, o pequeno príncipe começou a compreender, que cada um deles é habitado por algum ser de formação ontológica própria, ou seja, por uma característica própria. Assim, lá ele encontrou o vaidoso. O vaidoso vive em função do adulador, bajulador ou do admirador, sempre esperando que alguém o louve, o lisonjeie, de preferência numa plateia, para depois agradecer ao louvor. É desse tipo de pessoas que o adulador, o bajulador ou o admirador entre aspas, tiram proveito em seu próprio favor. Portanto, a existência do vaidoso depende da louvação e da fama. Segue-se daí, que os vaidosos só ouvem os elogios, por isso aquele infeliz habitante do asteroide 326, sem responder às ultimas perguntas do pequeno príncipe, disparou:

“- Não é verdade que tu me admiras muito? perguntou ele ao principezinho.

- Que quer dizer admirar?

- Admirar significa reconhecer que eu sou o homem mais belo, mais rico, mais
inteligente e mais bem vestido de todo o planeta.

- Mas só há você no seu planeta!

- Da-me esse gosto. Admira-me mesmo assim!”

O bêbado do asteroide 327.


Ao chegar ao planeta (3º) habitado por um bêbado, o pequeno príncipe o encontra sentado à uma mesa, com “uma coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias”, e aí seguiu-se este diálogo:

“- Que fazes aí? Perguntou ao bêbado, silenciosamente instalado diante de uma  coleção de garrafas vazias e uma coleção de garrafas cheias.

- Eu bebo, respondeu o bêbado, com ar lúgubre.

- Por que é que bebes? perguntou-lhe o principezinho.

- Para esquecer, respondeu o beberrão.

- Esquecer o quê? indagou o principezinho, que já começava a sentir pena.

- Esquecer que eu tenho vergonha, confessou o bêbado, baixando a cabeça.

- Vergonha de quê? investigou o principezinho, que desejava socorrê-lo.

- Vergonha de beber! concluiu o beberrão, encerrando-se definitivamente no seu
silêncio.”

Como se pode perceber, o pequeno príncipe tentou nesta última instância levá-lo ao limite lógico, ou seja — perguntando: de que o bêbado tinha vergonha? — pelo que este lhe respondeu: “Vergonha de beber!”

Essa foi uma tentativa de compreender a incompreensível estupidez humana, a ponto de não conseguir se remir da danação. A morte lógica do ser humano é não enxergar o óbvio. Posso estar enganado, mas, no caso, me parece é que não havia decisão de parar de beber, então não é aí que está o problema – o problema e que o bêbado não se apercebia do absurdo lógico que cometia, e ele satisfazia sua vontade — porquanto a bebida para ele era boa, embora nem tudo que é bom, faz bem à saúde física e mental. E indivíduo com a saúde física e mental doente por excesso de vícios, só tende a causar mal também à sociedade.

O asteroide 328 do Homem de Negócios


Nesse quarto planeta o pequeno príncipe se deparou com outro tipo de boçalidade — “o homem de negócios”, pois assim como o rei queria ter súditos para se sentir como tal, o homem de negócios precisava “ter”, “possuir” (ter posses, ter bens e dinheiro). Para ele, o “ter” era muito mais significativo do que “ser”, porque isso era a razão, ou seja, a única forma ontológica do “homem de negócios” “ser”.

Um ser humano desse tipo, se lhe for retirada a “ilusão da posse” — desaparece a sua substância ontológica. É por isso que se costuma dizer que a pior condenação penal para esse tipo e “mexer no seu bolso”.

Pois é, esse homem se sentiu incomodado com a presença do pequeno príncipe e [...] “O homem de negócios levantou a cabeça: (e disse):

Há cinqüenta e quatro anos que habito este planeta e só fui incomodado três vezes.

A primeira vez foi há vinte e dois anos, por um besouro caído não sei de onde. Fazia um barulho terrível, e cometi quatro erros na soma. A segunda foi há onze anos, por uma crise de reumatismo. Falta de exercício. Não tenho tempo para passeio. Sou um sujeito sério. A terceira... é esta! Eu dizia, portanto, quinhentos e um milhões...

- Milhões de quê?  Perguntou o principezinho [...]

Ah estrelas?

- Isso mesmo. Estrelas.

- E que fazes tu de quinhentos milhões de estrelas?[...]

Esse aí, disse o principezinho para si mesmo, raciocina um pouco como o bêbado -
No entanto, fez ainda algumas perguntas.

Como pode a gente possuir as estrelas?

De quem são elas? respondeu, ameaçador, o homem de negócios

- Eu não sei. De ninguém.

- Logo são minhas, porque pensei primeiro.

- Basta isso?

Quando achas um diamante que não é de ninguém, ele é teu. Quando achas uma ilha que não é de ninguém, ela é tua. Quando tens uma idéia primeiro, tu a fazes registrar: ela é tua. E quanto a mim, eu possuo as estrelas, pois ninguém antes de mim teve a idéia de as possuir.

Isso é verdade, disse o principezinho. E que fazes tu com elas?

Eu as administro. Eu as conto e reconto, disse o homem de negócios. É difícil. Mas eu sou um homem sério! [...]

Eis, portanto, a ironia sobre todo o sistema fiduciário, representando a ilusão de um valor irreal que o homem de negócios, aparentemente possuía nas estrelas do universo, para contá-las e gerenciá-las mediante registro em papéis que os guardava no cofre, como se fosse para negociar numa espécie de Bolsa Cósmica de Valores, a compra e venda de papéis de crédito que valeriam para a compra e venda de estrelas e galáxias. Não era ele o contador do qual o Grande Arquiteto do Universo dependeria para contabilizar o que Ele construiu de graça, mas que só tem valor ontológico. Essa alegoria significa que a ilusão de posse material do ser humano, não traduz um valor ontológico, porque o que é material — é transitório e fungível independente do tempo. De tal sorte, isso novamente vem confirmar a estupidez do ser humano.
              
Destarte, penso que a única posse que o ser humano pode ter — é a posse e a herança de si mesmo.


O asteroide 329 onde o pequeno príncipe encontrou O acendedor de candeeiros de iluminação pública


Chegando ao quinto planeta, que curiosamente era o menor de todos, o pequeno príncipe se deparou com o acendedor de candeeiros, cuja permanente função era de acender e apagar os candeeiros de iluminação pública. Todavia nesse planeta, mal cabia um lampião e o acendedor de lampiões, motivo, portanto e pelo qual isso era incompreensível para o pequeno príncipe, — afinal para que serviriam um lampião e um acendedor de lampião, num planeta sem casa e sem gente e suspenso no espaço sideral?

Como o planeta era extremamente pequeno e realizava a rotação em torno do seu próprio eixo, o seu único habitante tinha que acender e apagar o candeeiro cada vez mais rápido, a cada minuto.

Por conseguinte, o pequeno príncipe perguntou ao homem que acendia o candeeiro, por que ele fazia isso? Faço-o — respondeu-lhe, porque esse é meu mister — qual seja, a tarefa que executava a cada momento, sem perquirir o sentido dela, mas apenas a realizava sem descanso e sem poder fazer o que mais gostava na vida que era — dormir.

Não obstante sua tarefa não tivesse aparentemente um sentido cósmico, como o Mito de Sísifo, o pequeno príncipe disse para consigo mesmo: “- Talvez esse homem seja mesmo absurdo. No entanto, é menos absurdo que o rei, que o vaidoso, que o homem de negócios, que o beberrão. Seu trabalho ao menos tem um sentido. Quando acende o lampião, é como se fizesse nascer mais uma estrela, mais uma flor. Quando o apaga, porém, é estrela ou flor que adormecem. É uma ocupação bonita.
E é útil, porque é bonita.”

Albert Camus em “O Mito de Sísifo – Ensaio Sobre o Absurdo”, fez uma observação a respeito da realização de um trabalho absurdo, ridículo e sem sentido objetivo e prático:
“Os deuses tinham condenado Sísifo a rolar um rochedo incessantemente até o cimo de uma montanha, de onde a pedra caía de novo por seu próprio peso. Eles tinham pensado, com as suas razões, que não existe punição mais terrível do que o trabalho inútil e sem esperança.”
Porém, no caso do acendedor de candeeiro o pequeno príncipe observou sobre o trabalho que aquele personagem executava, dizendo: [...]“No entanto, é o único que não me parece ridículo.
Talvez porque é o único que se ocupa de outra coisa que não seja ele próprio.”[...]

O asteroide 330 habitado por um velho que escrevia livros enormes — “o geógrafo”.

O sexto planeta era dez vezes maior e era habitado por um velho que escrevia livros enormes e dizia ser um geógrafo. Assim, logo que o pequeno príncipe chegou o geógrafo  exclamou: “— Bravo! Eis um explorador!”

“- Que livro é esse? perguntou-lhe o principezinho.

Que faz o senhor aqui?

- Sou geógrafo, respondeu o velho.

- Que é um geógrafo? perguntou o principezinho.

- É um sábio que sabe onde se encontram os mares, os rios, as cidades, as
montanhas, os desertos.

É bem interessante, disse o principezinho. Eis, afinal, uma verdadeira profissão! E
lançou um olhar, em torno de si, no planeta do geógrafo. Nunca havia visto planeta tão majestoso.

- O seu planeta é muito bonito. Haverá oceanos nele?

- Como hei de saber? disse o geógrafo.

- Ah! (O principezinho estava decepcionado.) e montanhas?

- Como hei de saber? disse o geógrafo.

- E cidades, e rios, e desertos?

- Como hei de saber? disse o geógrafo pela terceira vez.

- Mas o senhor é geógrafo

- É claro, disse o geógrafo; mas não sou explorador.”

Ora, como se entende nestas últimas três linhas, é que o escritor geógrafo para realizar seu trabalho depende dos exploradores, ademais ele completa essa afirmativa:

“Há uma falta absoluta de exploradores(*). Não é o geógrafo que vai contar as cidades, os rios, as montanhas, os mares, os oceanos, os desertos. O geógrafo é muito importante para estar passeando. Não deixa um instante a escrivaninha.
 (*) (Nota deste blogueiro: exploradores, no caso, significa aqueles que realizam investigações de campo)

Mas recebe os exploradores, interroga-os, anota as suas lembranças. E se as lembranças de alguns lhe parecem interessantes, o geógrafo estabelece um inquérito sobre a moralidade do explorador.

- Por quê?

- Porque um explorador que mentisse produziria catástrofes nos livros de geografia. Como o explorador que bebesse demais.”

É nesse escritor geógrafo que podemos perceber as perversidades reunidas, de todos os outros habitantes dos planetas já descritos, a saber: de um “rei ou monarca absoluto e universal” que dominava, mas desconhecia os seus domínios, administrava um conhecimento que não era seu porque, só podia acreditar e ter fé no que os outros lhe informavam, sem, no entanto, saber se era verdade. Assim também, como o “vaidoso” que para ser admirado se escorava no seu estatuto que era falso e sem substância. Como “o bêbado” que colecionava o que supunha serem verdades, como as garrafas cheias ou mesmo vazias, mas que se satisfazia com o vício porque lhe parecia bom. E quanto ao “Escritor Geógrafo”, este nunca poderia sentir e gozar da substancialidade da sua ciência, porquanto a mesma consistia somente de possibilidades ilusórias, portanto não satisfatórias para o espírito, vez que tinha somente os relatos dos exploradores geográficos e mais nada. Assim também, como “o homem de negócios” que só amontoava riquezas que não eram suas e sem contato com as mesmas, pois aparentemente as possuía nas estrelas do universo, para contá-las e gerenciá-las mediante registro em papéis que os guardava no cofre, como se fosse para negociar numa espécie de Bolsa Cósmica de Valores, a compra e venda de papéis de crédito que valeriam para a compra e venda de estrelas e galáxias.


Eis o sétimo planeta — o pequeno príncipe chega à Terra – “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

É pois, no planeta Terra, onde habitam outros seres e não só gente perversa, que o pequeno príncipe vai conviver por algum tempo para ampliar o seu horizonte antropológico.
A Terra não é um planeta qualquer! Contam-se lá cento e onze reis (não esquecendo, é claro, os reis negros), sete mil geógrafos, novecentos mil negociantes, sete milhões e meio de beberrões, trezentos e onze milhões de vaidosos isto é, cerca de dois bilhões de pessoas grandes.”

Ora, talvez seja esse o problema da Terra — é que enquanto nos asteroides ou pequenos planetas aqui mencionados, os vícios eram singulares, aqui eles se multiplicam de forma avassaladora.

Mas por incrível que possa parecer, foi na Terra que o nosso pequeno herói ouviu a seguinte sentença inserida no trecho deste diálogo:

“- Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se
lembrar.

- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...”


Enfim, concluo este modesto ensaio baseado no livro “O Pequeno Príncipe”, de autoria de Antoine de Saint-Exupéry, traduzido por Dom Marcos Barbosa, ilustrado com aquarelas pelo autor, para a 25ª edição da Livraria AGIR Editora, São Paulo, 1983, com o seguinte comentário extraído da Wikipédia: “Le Petit Prince
 pode parecer simples, porém apresenta personagens plenos de simbolismos: o rei, o contador, o geógrafo, a raposa, a rosa, o adulto solitário e a serpente, entre outros. O personagem principal vivia sozinho num planeta do tamanho de uma casa que tinha três vulcões, dois ativos e um extinto. Tinha também uma flor, uma formosa flor de grande beleza e igual orgulho. Foi o orgulho da rosa que arruinou a tranquilidade do mundo do pequeno príncipe e o levou a começar uma viagem que o trouxe finalmente à Terra, onde encontrou diversos personagens a partir dos quais conseguiu repensar o que é realmente importante na vida.
O romance mostra uma profunda mudança de valores, e sugere ao leitor quão equivocados podem ser os nossos julgamentos, e como eles podem nos levar à solidão. O livro nos leva à reflexão sobre a maneira de nos tornarmos adultos, entregues às preocupações diárias, e esquecidos da criança que fomos e somos.”


“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.”


 Antoine de Saint-Exupéry

“A perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado.”

 Antoine de Saint-Exupéry

“O essencial é invisível aos olhos.”

 Antoine de Saint-Exupéry


Nota: (No Brasil diz-se: O Pequeno Príncipe, em Portugal: O Principezinho. Na tradução mantive o termo fiel ao que está no livro)