sexta-feira, 16 de março de 2012

Você sabe exatamente o que significam as expressões: “Livre-Pensamento” e “Livre-Pensador”?


Muitas pessoas falam as coisas sem saber exatamente o que dizem. Muitas vezes ouvi alguém dizer que é um livre-pensador, mas frequenta igreja ou algum centro espírita ou seita religiosa.

Para explicar o significado das expressões “Livre-Pensamento” e “Livre-Pensador”, transcrevo trechos do texto do filósofo Bertrand Russell, publicado no livro “Ensaios Céticos”, (12º ensaio) tradução de Marisa Motta, para L&PM Editores, Porto Alegre, RS, 2010 (Coleção L&PM Pocket;657):

Começaremos tentando esclarecer o que para nós significa a expressão “livre-pensamento”. Essa expressão tem dois sentidos. No sentido mais restrito, denota o pensamento que não aceita os dogmas da religião tradicional. Assim, um homem é um “livre-pensador” se não for cristão, muçulmano, budista ou xintoísta, ou membro de quaisquer outras instituições que aceitam alguma ortodoxia herdada. Nos países cristãos, um homem é um “livre-pensador” quando não acredita em Deus, embora isso não seja suficiente para tornar um homem ‘livre-pensador’ em um país budista.

Não quero minimizar a importância do livre-pensamento nesse sentido. Sou um dissidente de todas as religiões conhecidas e espero que todas as crenças religiosas desapareçam. Não creio que, em última análise, a fé religiosa tenha sido uma força positiva. Apesar de estar preparado para admitir que em determinadas épocas e lugares ela obteve bons resultados, considero esse fato como pertencente aos primórdios da razão humana e a um estágio de desenvolvimento que agora estamos amadurecendo.

Quando dizemos que algo é “livre”, nosso significado não é preciso, a menos que possamos descrever de que é livre. Qualquer que seja ou quem quer que seja “livre” não está sujeito a uma certa coerção externa e, para se exato, devemos explicar esse tipo de coerção. Por conseguinte, o pensamento é “livre” quando está liberto de determinados tipos de controle externo que estão com frequência presentes. Alguns desses controles que devem estar ausentes para que o pensamento seja “livre” são óbvios, mas outros são mais sutis e elusivos.

Iniciaremos pelos mais óbvios: o pensamento não é “livre” quando acarreta penalidades legais manter ou não certas opiniões, ou exprimir a crença pessoal ou a ausência dela em determinados assuntos. Mas pouquíssimos países no mundo têm esse tipo elementar de liberdade. Na Inglaterra, sob as leis da blasfêmia, é ilegal expressar a descrença da religião cristã, embora na prática a lei não seja aplicada a pessoas abastadas. É também ilegal ensinar o que Cristo pregou em relação à não resistência. Portanto, qualquer pessoa que não queira se tornar um criminoso deve professar sua concordância quanto à pregação de Cristo, mas deve evitar dizer em que consiste esse ensinamento.[...]

É evidente que a condição mais elementar para o pensamento ser livre é a ausência de penalidades legais para a expressão de opiniões. Contudo, nenhum grande país atingiu esse nível, embora muitos pensem que o alcançaram. As opiniões que ainda são perseguidas vão de encontro à maioria como tão monstruosas e imorais que o princípio geral de tolerância não pode ser aplicado a elas. Mas isso é exatamente o mesmo ponto de vista que deu origem às torturas da inquisição. Houve época em que o protestantismo era visto da mesma forma maligna com o bolchevismo é agora. Por favor, não infira a partir dessa observação que eu sou protestante ou bolchevique.

Entretanto, as penalidades legais no mundo moderno são os obstáculos à liberdade de pensamento. Os dois grandes obstáculos são as penalidades econômicas e a distorção da evidência. É claro que o pensamento não é livre se a manifestação de certas opiniões impossibilitam uma pessoa de ganhar seu sustento. Também é evidente que o pensamento não é livre se todos os argumentos de um lado da controvérsia são sempre apresentados de modo tão atrativo quanto possível, enquanto os argumentos do outro lado só podem ser descobertos mediante uma procura diligente. Esses obstáculos existem em todos os grandes países que conheço, exceto na China, que é (ou foi) o último refúgio da liberdade. São esses os impedimentos aos quais me dedicarei — sua magnitude atual, a probabilidade de sua expansão e a possibilidade de redução.

Podemos dizer que o pensamento é livre quando ele é exposto a uma competição liberada entre crenças, ou seja, quando todas as crenças possam se manifestar, e não haja vantagens ou desvantagens legais ou pecuniárias associadas a elas. Isso é um ideal que, por várias razões, jamais será plenamente alcançado. Mas é possível aproximar-se bem mais dele do que fazemos hoje.

Três incidentes em minha vida servirão para demonstrar como, na Inglaterra moderna, as balanças inclinam-se a favor do cristianismo. O motivo para essa menção deve-se ao fato de que muitas pessoas não percebem as desvantagens às quais o agnosticismo declarado ainda expõe os seres humanos.

O primeiro incidente pertence a um estágio muito preliminar da minha vida. Meu pai era um livre-pensador, porém morreu quando eu tinha apenas três anos de idade. Desejando que eu não fosse criado em meio a superstições, ele indicou dois livre-pensadores como meus guardiões. No entanto, os tribunais revogaram seu testamento e decidiram educar-me na fé cristã. O resultado foi desapontador, porém não por culpa da lei. Caso meu pai tivesse dado instruções para que eu fosse educado como um “cristadelfiano”, um “muggletoniano”, ou na Igreja Adventista do Sétimo Dia, os tribunais não teriam feito objeção. Um pai tem o direito de estatuir que qualquer superstição imaginável possa ser instilada em seus filhos após sua morte; mas não tem o direito de dizer que eles devem ser mantidos livres do misticismo, se possível.

O segundo incidente ocorreu em 1910. À época desejei candidatar-me ao parlamento, como um liberal e os Whips recomendaram-me a um certo constituinte. Dirigi-me à Associação Liberal que se manifestou de modo favorável, e minha aceitação parecia certa. Mas, ao ser questionado por um grupo de líderes políticos do mesmo partido, admiti que era agnóstico. Quando perguntaram se o fato poderia vir à Luz publicamente, repliquei que seria provável que sim. Indagaram se eu estaria disposto a freqüentar a igreja algumas vezes e eu respondi que não. Como conseqüência, eles selecionaram outro candidato, que devidamente eleito, permanece no Parlamento desde então, e é membro do governo atual (1922).

Logo após, ocorreu o terceiro incidente. Fora convidado pelo Trinity College para tornar-me um conferencista, mas não um membro. A diferença não é pecuniária; é que um membro tem direito de manifestar sua opinião em questões administrativas do College, e não pode ser dispensado durante o prazo de sua afiliação, exceto por um ato de grave imoralidade. A razão pela qual não me ofereceram o posto de membro deve-se ao fato de que o partido clerical absteve-se do voto anticlerical. O resultado é que fui demitido em 1916. Se dependesse de minhas conferências teria morrido de fome.

Esses três incidentes ilustram diferentes tipos de desvantagem referentes ao livre-pensamento declarado [...]. O resultado evidente é que as pessoas não abastadas não ousam ser francas em relação às suas crenças religiosas.[...]

Dan Barker define “livre-pensador” (S.m), como aquele que pensa livremente em matéria religiosa, só aceitando as doutrinas que se conformam com sua razão, independentemente de tradição, autoridade ou crenças. Entre os livres-pensadores incluem-se os ateus, agnósticos e racionalistas.

Ninguém pode ser um livre-pensador se exige conformidade com a bíblia, credo ou messias. Para um livre-pensador a revelação e a fé são inválidas, e a ortodoxia não é nenhuma garantia da verdade.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Liberdade e autoridade no ensino -- Bertrand Russell


9 de Novembro de 2004 Ensino da filosofia


No ensino, como em outras coisas, a liberdade deve ser questão de grau. Há liberdades que não podem ser toleradas. Uma vez conheci uma senhora que afirmava não se dever proibir coisa alguma a uma criança, pois esta deve desenvolver sua natureza de dentro para fora. "E se a sua natureza a levar a engolir alfinetes?", indaguei; lamento dizer que a resposta foi puro vitupério. No entanto, toda criança, abandonada a si mesma, mais cedo ou mais tarde engolirá alfinetes, tomará veneno, cairá duma janela alta ou doutra forma chegará a mau fim. Um pouquinho mais velhos, os meninos, podendo, não se lavam, comem demais, fumam até enjoar, apanham resfriados por molhar os pés, e assim por diante — além do fato de se divertirem importunando anciãos, que nem sempre possuem a capacidade de resposta de Eliseu. Quem advoga a liberdade da educação não quer dizer que as crianças devam fazer, o dia todo, o que lhes der na veneta. Tem de existir um elemento de disciplina e autoridade; a questão é até que ponto, e como deve ser exercido.


A educação pode ser considerada de muitos pontos de vista: o do Estado, o da Igreja, o do mestre-escola, o dos pais, ou mesmo (embora seja geralmente esquecido) da própria criança. Cada qual destes pontos de vista é parcial; cada um concorre com alguma coisa para o ideal da educação; porém, também aduz elementos maus. Examinemo-los sucessivamente e vejamos o que dizer contra e a favor deles.


Começaremos pelo Estado, que é a força mais poderosa na decisão da educação moderna. É muito recente o interesse do Estado pelo ensino. Não existia na Antigüidade ou na Idade Média; até a Renascença, a educação só era estimada pela Igreja. O Renascimento provocou o interesse pela erudição, levando à fundação de instituições tais como o Collège de France, que pretendia libertar-se da Sorbonne eclesiástica. A Reforma, na Inglaterra e na Alemanha, gerou o desejo, de parte do Estado, de ter algum controle sobre as universidades e liceus, para impedi-los de continuar sendo chocadeiras de "papistas". Mas esse interesse logo se evaporou. O Estado não desempenhou papel decisivo ou contínuo até o movimento, relativamente moderno, em favor da educação universal compulsória. Agora, não obstante, o Estado tem mais o que dizer às instituições escolásticas do que todos os outros fatores juntos.


Foram vários os motivos que levaram ao ensino universal obrigatório. Seus mais fortes advogados era movidos pelo sentimento de que, em si, é desejável saber ler e escrever, que a população ignorante é uma vergonha para um país civilizado, e que sem educação a democracia é impossível. Esses motivos era reforçados por outros. Logo se verificou que a educação tinha vantagens comerciais, que diminuía a delinqüência juvenil e que abria a possibilidade de arregimentar a população dos cortiços. Os anticlericais perceberam na educação estatal um meio de combater a influência da Igreja; este motivo pesou consideravelmente na Inglaterra e na França. Os nacionalistas, em especial depois da guerra franco-prussiana, acharam que a educação universal aumentaria a força do país. Todavia, a princípio, todas essas razões eram subsidiárias. A principal razão para se adotar a instrução universal foi o sentimento de vergonha que o analfabetismo provocava.


Uma vez firmemente estabelecida a instituição, o Estado logo viu que tinha várias serventias. Torna os jovens mais dóceis, tanto no mau como no bom sentido. Melhora os modos e reduz o crime; facilita a ação conjunta para objetivos coletivos; torna a comunidade mais sensível à direção do centro. Sem ela, a democracia não pode existir, exceto como forma vazia. Mas a democracia, como a concebem os políticos, é uma forma de governo, isto é, um método de levar as pessoas a fazer o que os chefes desejam, sob a impressão de estarem satisfazendo o próprio desejo. Em conseqüência, o ensino estatal adquiriu certa parcialidade. Ensina aos moços (até onde pode) o respeito às instituições existentes, a evitar toda crítica fundamental aos poderes supremos e a considerar com suspeita e desdém os países estrangeiros. Incrementa a solidariedade nacional à custa tanto do internacionalismo como do desenvolvimento individual. O dano ao desenvolvimento individual é causado pelo excesso de autoridade. São incentivadas as emoções coletivas, em vez das individuais, e severamente reprimido o desacordo com as crenças vigentes. A uniformidade é desejada por ser conveniente ao administrador, sem consideração pelo fato de só poder ser obtida por meio da atrofia mental. Tão grandes são os males resultantes que, no encontro de contas, é possível indagar, a sério, se a educação universal fez mais bem do que mal.


O ponto de vista da Igreja, como respeito à educação não é, na prática, muito diferente do do Estado. Há, entretanto, uma divergência importante: a Igreja preferiria que o laicato não fosse instruído de modo algum, e só lhe dá ensino quando o Estado insiste. O Estado e a Igreja desejam ambos instilar crenças que uma investigação livre provavelmente dissiparia. Mas o credo do Estado é mais fácil de inculcar numa população que sabe ler jornais, enquanto o credo da Igreja é mais fácil de instilar numa população totalmente analfabeta. O Estado e a Igreja são ambos hostis ao raciocínio, porém, a Igreja também é (sub-repticiamente embora, hoje em dia) hostil ao ensino. Isto passará, e está passando, à medida que as autoridades eclesiásticas aperfeiçoarem a técnica de ensinar sem estimular a atividade mental — especialidade na qual, há muito tempo, os jesuítas se distinguiam.


Raramente o mestre-escola tem direito a um ponto de vista próprio, no mundo moderno. É nomeado por uma autoridade no ensino, e "posto na rua" se verificarem que de fato educa. Além deste motivo econômico, o mestre-escola está exposto a tentações das quais provavelmente nem se dá conta. Mais diretamente do que a Igreja ou o Estado, ele é a favor da disciplina; oficialmente, sabe o que os alunos não sabem. Sem algum elemento de disciplina e autoridade, é difícil manter uma turma em ordem. É mais fácil punir um aluno por demonstrar caceteação do que ser interessante. Além disso, até o melhor mestre tende a exagerar sua importância, e acha possível e desejável moldar os alunos e deles fazer os seres humanos que julga deverem ser. Lytton Strachey descreve o Dr. Arnold a passear na beira do Lago de Como, meditando sobre o "mal moral". Mal moral, para ele, era tudo quanto desejava modificar nos seus estudantes. A crença de que eles o possuíam em alta dose lhe justificava o exercício do poder, e a concepção de si mesmo como governante cujo dever era mais castigar do que amar. Esta atitude — diferentemente expressa em várias eras — é natural a todo mestre zeloso que não monte guarda contra a influência enganadora da sua própria importância. Não obstante, o mestre é sem dúvida a melhor das forças interessadas na educação, e é principalmente dele que devemos esperar o progresso.


Entretanto, o professor deseja o prestígio da sua escola. Isto lhe faz desejar que os seus alunos se distingam em competições atléticas e exames acadêmicos, o que o leva a exercer a seleção dos estudantes superiores, com exclusão dos outros. Para os garotos comuns, o resultado é mau. É muito melhor para um menino jogar mau do que ver os outros jogarem bem. H. G. Wells, na sua "Vida de Sanderson de Oundle", conta-nos como esse grande mestre fazia pé firme contra tudo quanto deixasse sem exercício e sem cuidado as faculdades do menino comum. Quando se tornou diretor da escola, verificou que só alguns rapazes escolhidos podiam cantar na capela; recebiam instrução coral, enquanto o resto escutava. Sanderson insistiu em que todos cantassem, tivessem ou não inclinação musical. Nisto se elevava acima da parcialidade natural do mestre que se importa mais com o prestígio do que com os alunos. Naturalmente, se todos reconhecêssemos prestígio de modo sensato, não haveria conflito entre esses dois motivos: a escola que mais fizesse pelos alunos receberia os maiores aplausos. Mas neste mundo atarefado os sucessos espetaculares sempre ganham louvor fora de proporção com a sua verdadeira importância, de modo que é difícil evitar conflito entre os dois motivos.


Chego agora ao ponto de vista do pai ou da mãe. Este varia segundo a condição econômica: o assalariado comum tem desejos bem diferentes dos do profissional liberal médio. O assalariado deseja que os filhos vão para a escola o mais cedo possível, para que não amolem em casa; também os quer fora da escola o mais breve possível, para que ajudem a ganhar a vida. Quando, recentemente, o governo britânico resolveu reduzir as verbas do ensino, propôs que as crianças não fossem para a escola antes dos seis anos, e não fossem obrigadas a continuar depois dos treze. A primeira proposta causou tamanho protesto popular que teve de ser abandonada: a indignação das mães preocupadas (que acabavam de conquistar o voto) foi irresistível. A última, diminuindo a idade de deixar a escola, não foi impopular. Os candidatos parlamentares que advogavam melhor educação recebiam aplauso unânime dos que lhe freqüentavam os comícios mas, na visita domiciliar verificavam que os assalariados impolitizados (que são a maioria) queriam os filhos livres para arranjar emprego o mais cedo possível. As exceções são principalmente daqueles que esperam que seus filhos subam na escala social, com auxílio do saber.


Os profissionais liberais têm um ponto de vista bem diferente. Sua renda depende do fato de terem tido instrução melhor que a média, e desejam transmitir esta vantagem aos filhos. E estão dispostos a fazer grandes sacrifícios, com este propósito. Mas, em nossa atual sociedade competitiva, o que o pai comum deseja não é uma educação que seja boa em si, mas que seja melhor que a dos outros. Isto pode ser facilitado mantendo baixo o nível geral, e portanto não podemos esperar que um profissional liberal se entusiasme com o aumento das possibilidades de educação superior para os filhos de assalariados. Se todos os que desejam pudessem estudar medicina, mesmo que os pais fossem pobres, evidentemente os médicos ganhariam menos, tanto por causa do aumento da concorrência como do melhor do nível sanitário da população. O mesmo aplica-se à advocacia, ao funcionalismo público, etc. Assim, as boas coisas que o profissional liberal deseja para os próprios filhos ele não as deseja para a massa da população, a menos que tenha excepcional espírito público.


O defeito fundamental dos pais, em nossa sociedade competitiva, é desejarem que os filhos seja motivo de orgulho. Isto tem raízes no instinto, e só pode ser curado por esforços dirigidos nesse sentido. O defeito existe também nas mães, embora em menor grau. Todos nós sentimos, instintivamente, que os sucessos de nossos filhos derramam glória sobre nós, enquanto que os seus fracassos nos envergonham. Infelizmente, os sucessos que nos fazem inchar de orgulho são, muitas vezes, de gênero indesejável. Desde a aurora da civilização até quase nossos dias — e ainda na China e no Japão — os pais sacrificaram a felicidade conjugal dos filhos decidindo com quem casá-los, escolhendo quase sempre a noiva ou noivo mais rico. No mundo ocidental (exceto na França, em parte) os filhos se libertaram dessa escravatura pela rebelião, porém não mudaram os instintos dos pais. O que o pai comum deseja para o filho não é nem felicidade nem virtude, mas sucesso. Quer que seja motivo de orgulho, gabá-lo na presença dos colegas, e é em grande parte este desejo que domina os seus esforços no sentido de instruí-lo.


Para que a autoridade governe o ensino, deve repousar num ou em vários dos poderes que considerámos: o Estado, a Igreja, o mestre-escola ou o pai. Já vimos que a nenhum deles se pode confiar o cuidado pelo bem-estar da criança, porque cada qual deseja encaminhá-la a um objetivo que nada tem a ver com o seu bem-estar. O Estado quer que a criança sirva à expansão nacional e apoie a forma de governo existente. A Igreja quer que a criança sirva para ampliar o poderio do clero. O mestre-escola, num mundo competição, com freqüência considera a sua escola como o Estado considera a nação, e quer que a criança glorifique a escola. O pai quer que o filho glorifique a família. A própria criança, como finalidade em si, como ser humano autônomo, com direito à felicidade e ao bem-estar possível, não entra em cogitação, exceto muito parcialmente, para esses fins externos. Infelizmente, a criança carece da experiência necessária para orientar a sua própria vida, e é portanto presa dos sinistros interesses que prevalecem face à sua inocência. É isto que faz da dificuldade do ensino um problema político. Mas vejamos primeiro o que se pode dizer, do ponto de vista da própria criança.


É óbvio que a maioria das crianças, confiadas a si mesmas, não aprenderia a ler nem a escrever, e cresceria menos adaptada do que poderia ser às circunstâncias da vida. É necessária a existência de instituições educacionais, e as crianças devem obedecer a alguma autoridade, até certo ponto. Mas em vista de não se poder confiar inteiramente em autoridade alguma, nosso objetivo deve ser o mínimo de autoridade possível, e encontrar maneiras pelas quais os impulsos e desejos naturais dos jovens possam ser utilizados na educação. Isto é muitíssimo mais possível do que com freqüência se supõe porque, afinal de contas, o desejo de adquirir conhecimento é natural na maioria dos moços. O pedagogo tradicional, que possuía conhecimento que não valia a pena divulgar, e falho de toda habilidade no divulgá-lo, imaginava que os jovens têm horror ingênito à instrução, conclusão a que era levado pela sua incapacidade de perceber as próprias deficiências. Tchekhov conta uma história encantadora de um homem que queria ensinar uma gatinha a pegar ratos. Quando não corria atrás deles, batia-lhe, e o resultado foi que mesmo depois de adulta a gata se encolhia de pavor na presença de um camundongo. "Foi esse homem", acrescenta Tchekhov, "que me ensinou latim". Ora, os gatos ensinam os filhotes a pegar ratos, mas esperam até se despertar o instinto. Então os gatinhos concordam que vale a pena adquirir esse conhecimento, de modo que não há necessidade de discipliná-los.


Os primeiros dois ou três anos de vida escaparam até agora ao domínio do pedagogo, e todas as autoridades concordam ser esse o período em que a criança mais aprende. Cada criança aprende a falar pelo seu próprio esforço. Quem quer que tenha observado uma criança saber que são consideráveis os esforços necessários. A criança escuta com atenção, olha os movimentos dos lábios, pratica os sons o dia inteiro, e concentra-se com admirável ardor. Naturalmente, os adultos a encorajam, pelo elogio, mas não lhes ocorre puni-la quando não aprende uma palavra nova naquele dia. Tudo o que proporcionam é oportunidade e louvor. E é de duvidar que algo mais seja necessário, em qualquer fase de aprendizado.


O essencial é fazer a criança ou o jovem sentir que o conhecimento vale a pena. Isto às vezes é difícil porque, na verdade, o conhecimento não vale. É também difícil quando só é útil certa massa considerável de conhecimento num setor, de modo que a princípio o aluno tende a se aborrecer. Em tais casos, porém, não é insuperável a dificuldade. Vejamos, por exemplo, o ensino de matemática. Sanderson de Oundle verificou que quase todos os meninos estão interessados em máquinas, e deu-lhes ocasião de construir máquinas bem complicadas. No decurso do seu trabalho prático, depararam-se com a necessidade de fazer cálculos, e assim se interessaram pela matemática exigida para o êxito de um empreendimento construtivo que os atraía. O método é dispendioso, e exige paciência e talento de parte do professor. Mas acompanha o rumo do instinto do estudante, de modo que tende a ser menos aborrecido, embora haja maior esforço intelectual. O esforço é natural tanto aos homens como aos animais, porém deve haver um estímulo instintivo em seu favor. Uma partida de futebol exige mais esforço do que pedalar uma máquina, entretanto aquele é prazer, enquanto este é castigo. É um engano supor que o esforço mental raramente possa dar prazer; a verdade é que exige certas condições para que seja deleitável e, até recentemente, nenhuma tentativa se fazia para criar tais condições no ensino. As condições principais são: primeira, um problema do qual se deseja a solução; segunda, sentimento de esperança na possibilidade de obter solução. Consideremos o método pelo qual David Copperfield tinha de estudar aritmética:


Mesmo depois de prontas as lições, o pior está para acontecer, sob forma de uma soma espantosa. Esta é inventada para mim, e ditada pelo sr. Murdstone, e começando por "Se eu entrar numa queijaria e comprar cinco mil queijos de Gloucester a quatro dinheiros e meio cada, pagamento à vista" — o que enche a a senhorita Murdstone de secreta alegria. Luto com os queijos sem qualquer resultado nem luz até a hora do jantar; então, tendo virado mulato por impregnar os meus poros com o pó da ardósia, ganho uma fatia de pão para acompanhar os queijos, e me considero em desgraça o resto da noite.


Evidentemente, o coitado do menino não podia adquirir o menor interesse nos queijos, nem ter esperança de fazer a conta certa. Se desejasse uma caixa de certo tamanho, e lhe dessem ordem de poupar a mesada até poder comprar madeira e pregos suficientes, isto estimularia tremendamente sua capacidade aritmética.


Não deveria haver nada hipotético nas contas que uma criança deve fazer. Lembro-me de uma vez ler o relato da aula de aritmética de um menino. A governante dera o problema: Se um cavalo vale três vezes tanto quanto um potro, e o potro vale $ 22, qual é o preço do cavalo? "O potro é domado?" indagou o menino. "Isso não faz diferença", disse a governante. "Ah, mas Jaime (o cavalariço) diz que faz muita diferença." A capacidade de aprender a verdade hipotética é uma das faculdades lógicas mais difíceis de desenvolver, e não deve ser esperada nos muito jovens. Todavia, isto é uma digressão, da qual devemos voltar ao tema central.


Não assevero que todas as crianças possam ter seus interesses intelectuais despertados por estímulos adequados. Algumas têm inteligência muito inferior à normal, e precisam de tratamento especial. É indesejabilíssimo misturar numa só classe crianças cujos níveis mentais difiram muito: as mais argutas ficarão aborrecidas de ouvir explicações sobre coisas que compreendem claramente, e as mais burras ficarão aflitas de ver que a professora passa a outra lição sem que tenham compreendido a anterior. Matérias e métodos devem ser adaptados à inteligência do estudante. Macaulay foi forçado a aprender matemática em Cambridge, mas pelas suas cartas se vê que foi pura perda de tempo. Obrigaram-me a estudar latim, e grego, com o que me revoltei, achando que era bobagem aprender línguas que não mais se falam. Acho que o pouco bem que tirei de vários anos de estudos clássicos eu poderia ter adquirido, já adulto, num mês. Após o mínimo essencial, é preciso levar em conta os gostos, e os alunos deveriam aprender de maneira que achem interessante. Isto é trabalho extra para os professores, que acham mais fácil ser massudos, especialmente quando têm excesso de trabalho. Mas as dificuldades podem ser sanadas dando aos professores horários mais breves e treino da arte de ensinar, o que se faz para os mestres-escola das primárias, mas não para os professores secundários e universitários.


A liberdade na educação tem muitos aspectos. Em primeiro de tudo, a liberdade de aprender ou não aprender. Depois a de escolher o que aprender. E na educação mais avançada, a liberdade de opinião. A liberdade de aprender ou não só pode ser concedida parcialmente, na infância. É necessário ensinar a ler e escrever a todos que não sejam imbecis. Até onde é possível fazer isto pela simples criação da oportunidade, só a experiência pode demonstrar. Mas mesmo que baste a oportunidade sozinha, é preciso que seja dada às crianças. A maioria preferiria brincar no quintal ou na rua, onde não há as ditas oportunidades. Mais tarde, talvez se pudesse deixar à decisão dos jovens ir ou não para a universidade; alguns desejarão ir, outros não. Isto seria tão bom princípio de seleção quanto um vestibular. Não se deveria permitir a permanência numa universidade de ninguém que não trabalhasse. Os moços ricos que hoje matam o tempo nos colégios estão desmoralizando os outros e ensinando a si próprios a ser inúteis. Se o trabalho com afinco fosse exigido como condição de residência, as universidades cessariam de atrair gente que detesta os empreendimentos intelectuais.


A liberdade de escolher o que aprender deveria existir mais do que na atualidade. Creio ser necessário agrupar os assuntos pelas suas afinidades naturais; há sérias desvantagens no sistema eletivo, que permite ao jovem escolher matérias inteiramente desligadas. Se eu organizasse o ensino na Utopia, com fundos ilimitados, daria a cada criança, aos doze anos mais ou menos, algum ensino sobre os clássicos, matemática e ciência. Após dois anos, deveria ser evidente o rumo das suas aptidões, e os próprios gostos do estudante seriam guia seguro, contanto que não houvesse "opções camaradas". Conseqüentemente, eu permitira, a cada menino e menino que o desejassem, se especializar a partir dos catorze anos. A princípio, a especialização seria bastante ampla, estreitando-se a aprofundando-se à medida que a educação progredisse. Pertence ao passado a possibilidade de ser universalmente bem informado. Um homem industrioso pode aprender algo de história e literatura, que exigem conhecimento de línguas clássicas e modernas. Ou pode saber um setor da matemática, ou uma ou duas ciências. Mas o ideal da educação "geral" caiu de moda; destruiu-se com a ampliação dos conhecimentos.


A liberdade de opinião, tanto de parte dos alunos como dos professores, é a mais importante das várias liberdades, e a única que não impõe limitações. Em vista de não existir, vale a pena recapitular alguns dos argumentos a seu favor.


O argumento fundamental pró liberdade de opinião é a falibilidade de todas as nossas crenças. Se soubéssemos a verdade com certeza, algo se poderia dizer a favor do seu ensino. Mas nesse caso poderia ser ensinada sem invocar autoridade, por meio de sua razoabilidade inerente. Não é necessário promulgar leis proibindo que ensine matemática quem quer que tenha opiniões heréticas sobre a tabuada de multiplicar, porque neste caso a verdade é clara, e não precisa ser amparada pelo castigo. Quanto o Estado intervém para garantir o ensino duma doutrina, assim procede "porque não há prova" conclusiva em favor dessa doutrina. O resultado é que o ensino não é legítimo, embora possa acontecer que seja verdadeiro. No Estado de Nova York, até recentemente, era ilegal ensinar que o comunismo é bom; na Rússia Soviética, é ilegal ensinar que o comunismo é mau. Sem dúvida, uma dessas opiniões é verdadeira e a outra falsa, mas ninguém pode garantir qual. Nem Nova York nem a Rússia Soviética ensinavam a verdade, proscrevendo a mentira, mas nenhuma das duas ensinava legitimamente, porque ambas representavam como certa uma proposição duvidosa.


A diferença entre a verdade e a legitimidade é importante nesta esfera. A verdade cabe aos deuses; do nosso ponto de vista humano, é um ideal, do qual nos podemos aproximar, mas que não podemos esperar atingir. A educação deve preparar-nos para a maior aproximação possível da verdade, e para isto precisamos ensinar a legitimidade. No meu entender, legitimidade é o hábito de formar nossas opiniões pelas provas, e mantê-las com o grau de convicção que a prova permite. Este grau jamais atingirá a certeza completa, e devemos portanto estar sempre dispostos a admitir novas provas contra crenças anteriores. Além disso, quando agimos sob impulso duma crença, devemos, se possível, fazer apenas o que for útil, mesmo que a nossa crença seja mais ou menos inexata; devemos evitar atos que seriam desastrosos não sendo a nossa crença "absolutamente" verdadeira. Em ciência, o observador anuncia os seus resultados juntamente com o "erro provável"; mas quem já ouviu falar de um teólogo ou político mencionar o erro provável dos seus dogmas, ou mesmo admitir que o seu erro seja concebível? Isto porque em ciência, onde mais nos aproximamos do conhecimento real, o homem pode confiar tranqüilamente na força da sua opinião, enquanto que, onde nada se sabe, a asserção tonitruante e o hipnotismo são os meios costumeiros de levar os outros a partilhar de nossa crença. Se os fundamentalistas achassem que tinham bons argumentos contra a evolução, não tornariam ilegal o seu ensino.


Tem toda classe de maus efeitos o hábito de ensinar ortodoxia a alguém, seja política, religiosa ou moral. Para começar, exclui da profissão homens que combinam honestidade com vigor intelectual, justamente aqueles que provavelmente teriam o melhor efeito moral e mental sobre os alunos. Darei três exemplos. Primeiro, na política: na América o professor de economia deve ensinar as teorias que aumentam a riqueza e o poderio dos muito ricos; se não o fizer, achará melhor ir a outra parte, como o Sr. Laski, ex-lente de Harvard, hoje um dos mais valiosos professores da London School of Economics. Segundo, na religião: a imensa maioria dos homens intelectualmente eminentes descrê da religião cristã, mas oculta esse fato em público porque teme perder seus proventos. Assim, no mais importante de todos os assuntos, está condenada ao silêncio a maioria dos homens cujas opiniões e argumentos mais valeriam a pena ouvir. Terceiro, em moral: praticamente todos os homens cometem pecados contra a castidade, nalguma fase da vida; é claro que aqueles que ocultam este fato são piores dos que os outros, pois são também hipócritas. Mas só aos hipócritas se abrem as portas dos cargos pedagógicos. Eis até onde vai os efeitos da ortodoxia sobre a escolha e o caráter dos professores.


Chego agora ao efeito sobre os alunos, que examinarei sob dois ângulos, o intelectual e o moral. Intelectualmente, o que estimula um jovem é um problema de importância prática óbvia, a respeito do qual ele deve conhecer opiniões divergentes. Um moço que aprenda economia, por exemplo, deveria ouvir aulas de individualistas e socialistas, protecionistas e livre-cambistas, inflacionistas e partidários do padrão ouro. Deveria ser instigado a ler os melhores livros das várias escolas, como o recomendam os que neles crêem. Isto lhe ensinaria a pesar argumentos e provas, a saber que nenhuma opinião é 100% certa, e a julgar os homens pela sua qualidade e não pela sua subserviência aos preconceitos. A história deveria ser ensinada não apenas do ponto de vista da própria pátria, como também do ponto de vista dos estrangeiros. Se a história fosse ensinada por franceses na Inglaterra, e por ingleses na França, não haveria desentendimentos entre os dois países, porque os dois entenderiam o ponto de vista do outro. O jovem deveria aprender a pensar que todas as questões são abertas, e que um argumento deve ser seguido aonde quer que leve. As necessidades da vida prática destruirão esta atitude rapidamente quando ele começar a ganhar a vida; mas até então deveria ser animado a libar os gozos da livre especulação.


Moralmente, também, é muito nocivo o ensino da ortodoxia aos jovens. Não é apenas o fato de compelir os professores mais capazes a abraçar a hipocrisia, e portanto a dar um mau exemplo moral. É também, o que é mais importante, o fato de encorajar a intolerância e as más formas do instinto do rebanho. Edmund Gosse, no seu "Pai e Filho", relata como, na infância, um dia o pai lhe revelou que ia casar outra vez. O garoto percebeu haver alguma coisa de que o pai se envergonhava e por fim indagou, em tom horrorizado: "Papai, ela é pedobatista?" E era. Até então ele acreditara que todos os pedobatistas eram maus. Assim as crianças das escolas católicas acreditam que os protestantes são maus, as crianças de qualquer escola dos países de língua inglesa acham os ateus malvados, as crianças da França julgam os alemães ruins, e as crianças alemãs acham perversos os franceses. Quando uma escola aceita como parte de sua tarefa ensinar uma opinião que não pode ser defendida intelectualmente (como praticamente todas fazem), é obrigada a dar impressão de que são maus todos quantos têm opinião contrária, pois doutra forma não pode engendrar a paixão exigida para repelir os embates do raciocínio. Assim, por amor à Ortodoxia, as crianças se tornam impiedosas, intolerantes, cruéis e belicosas. Isto será inevitável enquanto forem prescritas opiniões definidas em política, moral e religião.


Finalmente, em conseqüência deste dano moral ao indivíduo, há o incalculável prejuízo da sociedade. Em toda parte proliferam as guerras e perseguições, e o ensino das escolas que as possibilitam. Wellington costumava dizer que a batalha de Waterloo foi ganha nos campos de esporte de Eton. Poderia ter dito, com maior veracidade, que a guerra contra a França revolucionária foi instigada nas salas de aula de Eton. Em nossa época democrática, Eton perdeu sua importância; agora são as escolas elementares e secundárias comuns que importam. Em todos os países, por meio de cantorias à bandeira, Dia do Império, comemorações da Independência, Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, etc., tudo se faz para dar aos meninos gosto pelo homicídio, e às meninas a convicção de que são mais dignos de respeito os homens dispostos ao homicídio. Este sistema todo de degradação moral a que se expõem inocentes meninos e meninas se tornaria impossível se as autoridades permitissem liberdade de opinião a alunos e professores.


A regimentação é a fonte do mal. As autoridades educacionais não consideram as crianças, como se supõe que o faça a religião, seres humanos, com almas a salvar. Consideram-nas material para grandiosos planos sociais: futuros "braços" numa fábrica ou "baionetas" numa guerra, ou coisa que o valha. Nenhum homem está apto a educar a menos que sinta em cada aluno um fim em si, com seus direitos e sua personalidade, não apenas uma peça num quebra-cabeças, ou um soldado num regimento, ou um cidadão num Estado. A reverência pela personalidade humana é o início da sabedoria em todas as questões sociais, mas principalmente na educação.


Bertrand Russell

Tradução de Wilson Velloso
Retirado do livro Ensaios Céticos, de Bertrand Russell (Companhia Editora Nacional, 1957)


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Fonte: Crítica [ revista de filosofia ] – Clique aqui para conferir

quinta-feira, 8 de março de 2012

VOCÊ É REALMENTE LIVRE?



"Será que o que nós temos como verdade é verdade mesmo? Estamos nos sentindo bem? Estamos REALMENTE animados e felizes? De repente podemos estar PRESOS a determinados contextos e ainda não nos apercebemos de que precisamos modificar nosso modo de ver a vida. (...)"


"Eis algumas perguntas que podemos fazer para nós mesmos para identificarmos nossas crenças e valores, positivos ou não, e como eles afetam a nossa vida diária:


Qual o grau de influência da opinião alheia sobre meus atos e atitudes?


Quais crenças cooperam para meu bem-estar interior?


O que me dificulta ter suficiente autonomia para tomar minhas próprias decisões?


O que me impede de desfrutar uma vida plena?


Por que costumo fingir para agradar os outros?


Qual a razão de manter minha reputação alicerçada em um modelo exemplar?


Meus conceitos facilitam autoconfiança?"


"O livre-arbítrio - LIBERDADE DE AGIR E DE PENSAR - nos concede o poder de mudar nossas idéias, nossos modelos, concepções ou pensamentos, e de optar por crenças mais apropriadas ou favoráveis ao desenvolvimento de uma NOVA CONCEPÇÃO de universo interior e exterior. (...)"


"O estado de liberdade da criatura é proporcional ao seu AMADURECIMENTO espiritual. O indíviduo liberto, mais que idéias ou ideais, escolhe os autênticos VALORES DA ALMA, porque reconhece que estes orientam sua vida com LUCIDEZ, discernimento e ânimo. (...)"


"Considera e valoriza as orientações ou sugestões dos outros (cônjuge, familiares, amigos, educadores, etc) porque acredita que eles podem iluminar suas opções existenciais, mas nem por isso perde a AUTONOMIA de agir e pensar livremente.


"Sempre pondera e NUNCA JULGA de modo precipitado as experiências alheias; antes as observa e confronta com as suas e, por fim, as assimila ou as rechaça total ou parcialmente."


Trechos do Livro "Os prazeres da alma" páginas 79 - 84

Postagem enviada por Rodolpho Barreto Pereira, via. e.mail

quinta-feira, 1 de março de 2012

IGNORÂNCIA RELIGIOSA - Por HUMBERTO PINHO DA SILVA -


Ao declinar de tépida tarde de Estio, em anos de juventude, entrei em “ O Comércio do Porto”, a entregar ao Sr. Manuel Filipe, fotografias para a “ Reportagem Gráfica”.

Encaminharam-me a exígua salinha, de altas paredes, com janela para saguão, onde havia, pesada mesa de pé de galo, de madeira maciça, e sólidas cadeiras, também de madeira.

Ao sair, perpassei por varandim, onde dois gentis sujeitos, galhofavam animadamente, comentando, entre frouxos risos, o facto de certo jornalista, ateu confesso, ser indicado a cobrir cerimónia religiosa.

Lembrei-me da caricata cena, hoje, estando a ler o “ Jornal de Notícias”, da cidade do Porto, na confeitaria onde costumo merendar, ao deparar a seguinte informação:


Cátia Palhinha é evangélica e lê o Bíblia em casa.

A auxiliar de acção médica e a mãe tornaram-se evangélicas há cerca de um ano. A mãe da algarvia diz que a filha “ tem muita fé”

Cátia trocou há um ano a fé cristã pela evangélica (….)

“JN”, pág.31-07/12/2011

Estava a comentar, em alta voz, a notícia, quando senhora, envolta em falso casaco de peles e dedos cobertos de anéis, tão falsos como o casaco e os brincos, esclareceu meu espanto de: “ trocar a fé cristã pela evangélica”:

- "O que a mãe quis dizer: é que trocou a Igreja de Cristo pela de Deus. Era católica, agora é evangélica."

Empenhadíssimo, agradeci a elucidativa explicação, da gentil senhora, que pelo porte, fez-me recordar recuadas épocas em que haviam Senhoras, no trajo e em espírito.

Não finei de riso, como fizeram os da comitiva de Frei Bartolomeu dos Mártires, ao chegarem a terras de Barroso, mas pasmei pela ignorância religiosa que grassa pela nossa terra, e queira Deus que seja apenas religiosa, não vá a ignorância entrar, também, nas universidades, que são as “fábricas” de políticos, porque então não há santa que nos valha.

Humberto Pinho da Silva - Porto, Portugal


Publicado por solpaz às 17:47

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Meditar - Saiba o simples que é - Por Amadeu Wolff




Amadeu Wolff



Meditar é me dizer, dizer-me algo, meditação é dizer algo sobre mim para mim mesmo, explicar eu para eu mesmo, prestar atenção em mim e falar comigo sem dizer nada, apenas analisando meditativamente, meditação é ficar olhando para mim estando de olhos fechados, meditar é se ligar em tudo sobre mim mesmo, perceber tudo ao mesmo tempo, meditar é ficar numa calma alerta, é perceber o silencio majestoso que existe dentro do barulho.




Observar o momento presente totalmente consciente é estar meditando, perceber todo e qualquer pensamento e sentimento sem nenhum questionamento, é estar vivendo um momento meditativamente, mas a melhor definição de como saber se estou ou não em meditação eu ouvi do mestre iluminado Eckhart Tolle. Numa de suas preleções alguém da platéia perguntou: mestre como vou saber se estou mesmo meditando ou em imaginação de minha mente, o mestre Eckart Toole respondeu: você saberá que está meditando quando não precisar mais fazer esta pergunta.




Meditar é um ato totalmente físico, uma ação que deve ser totalmente consciente, e lamentávelmente muitas pessoas que estão precisando se ligar em quase tudo, ficam tentando se desligar de tudo, ainda bem que não conseguem, pois se desligasem de tudo morriam na mesma hora.




Muitos quando tentam meditar querem um contato com um espiritual desconhecido, buscam uma revelação transformadora e passam horas imaginando que um dia vão conseguir ir para outro estado espiritual, mas estado este que até então ainda não sabem o que é.




Assim tais pessoas deixam de perceber o simples que é, e que meditação é perceber o aqui e agora, é prestar atenção em tempo real ao mundo real, e não no mundo imaginário. Contemplando o momento presente estamos no estado de mestre, estado este em que vivia Jesus Cristo, Buda e tontos outros iluminados, e temos muitos exemplos vivos hoje em dia do que seja um mestre meditando.




Um verdadeiro mestre Kung Fu quando esta na posição de Buda em meditação, se chegar alguém e tentar lhe agredir desferindo-lhe um murro, o mestre Kung Fu percebe a ação e se defende esquivando-se do golpe, pois estando em profunda meditação ele está super ligado ao momento presente, e não desligado como muitos pensam. Um verdadeiro mestre meditando se passar ao seu lado uma formiguinha ele percebe o barulho dos pézinhos da formiguinha andando, ou não é um verdadeiro mestre.




Em uma só vós todos os povos dizem que Deus está dentro de nós, e que a meditação nos levará para um encontro com este Divino que temos dentro de nós esta Divina Presença, mas mesmo assim ao olhar para dentro de si mesmo as pessoas querem encontrar um outro plano, não buscam contemplar o que sentem como: respiração, pensamentos, sentimentos, batimentos cardíacos, ansiedades e tantos detalhes que nossos cincos sentidos podem nos mostrar, mas se somente contemplassem a si neste momento presente ai sim é possível sentir o momento presente aqui e agora, e assim estar nesta Divina Presença EU SOU.




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A MAÇONARIA DE HOJE

A MAÇONARIA DE HOJE

Crônica de
ANESTOR PORFíRIO D SILVA
Mestre Instalado e Conselheiro do GOEG
Membro da ARLS Adelino Ferreira Machado
Oriente de Hidrolândia – GO
Fones: (062) 997l-0046 e 3255-l402

Quem, por acaso, quiser obter informações sobre o que é a maçonaria nos dias atuais não terá muita oportunidade de ver, ouvir ou ler senão pronunciamentos, comentários ou crônicas superficiais oriundas de maçons que se encontram, de certa forma, preocupados com o futuro da sua instituição. Dentre os ditos manifestos estão alguns que trazem em seus conteúdos sérias conclusões, dando conta de que a Ordem Maçônica está em declínio porque, embora tendo um passado de importantes lutas e de muitas glórias, enfrenta um presente sem afirmações, à espera de um futuro incerto. De alto custo financeiro para os seus membros, ela caminha para a sucumbência por não ter mais bandeiras de luta e também porque em nada evoluiu ao longo de toda a sua história. O que faz atualmente não passa de sessões monótonas, improdutivas e sem atrativos, com os seus dirigentes mais interessados em promover banquetes em ambientes suntuosos, onde o que mais se vê é a farta distribuição de diplomas e medalhas condecorativas, em vez de trabalharem no sentido de colocar a Ordem nos trilhos da sobrevivência e conduzi-la por rumos capazes de resgatarem a sua verdadeira identidade.



Há meses atrás tornou-se conhecido um extenso trabalho divulgado pela Internet, de autoria do valoroso irmão J.. L.. Cerqueira, membro da ARLS UNIÃO E SABEDORIA, da obediência da GRANDE LOJA, Oriente de Salvador-BA. De forma clara, bastante expressiva e franca, aquele sapiente irmão afirma que a maçonaria brasileira, entre outras circunstâncias, está morrendo porque não tem mais objetivos a alcançar como o fazia no passado.

Por tudo isso e muito mais, os convictos partícipes dessa linha de entendimento, afirmam: “O grau de evasão vem crescendo de ano para ano e, a continuar assim, a falência da maçonaria será inevitável se nada for feito.”

Extra oficialmente sabe-se que os índices de evasão de iniciados nas últimas décadas vêm se elevando e é fato inconteste que pode estar ocorrendo não só pela simples falta de uma bandeira de luta, ou pelo alto custo que se paga pela permanência no seio da maçonaria. O fenômeno vem se verificando em razão de uma série de fatores, dentre eles destacam-se também o desinteresse e a desmotivação. Além do mais, no que diz respeito aos processos de admissão adotados pela maçonaria, há um rigoroso critério de seleção onde os valores éticos e morais são o que mais pesa e o que mais representa na escolha e aprovação de seus candidatos. O fator qualidade é outra determinante sempre seguida, que perdura há séculos e que, em tempo algum, facilitou ou permitiu o inchaço de seus Templos. Mas, no dinamismo imprescindível da sua existência, sem o qual seria impossível qualquer evolução, é natural que o seu quadro de obreiros passe a cada mês por constantes alterações. Ela foi, é e sempre será renovação. Obviamente, devido a essa característica peculiar que deixa a maçonaria renovada a cada dia é que, para afirmar-se em que consiste a sua finalidade nos dias atuais, necessário se torna uma volta ao começo da sua história e, a partir de então, principiar a desvendar seus mistérios e descobrir que entre tantas afirmativas existem muitas divergências e polêmicas contradições. É preciso conhecer bem a sua origem, as causas que motivaram o seu surgimento, para que existe e só depois poder-se afirmar o que ela significa, na atualidade, para o mundo profano e também para nós, maçons, inclusive aqueles que a dirigem.

Não há quem discorde de que a maçonaria brasileira dos nossos dias se apresente mais tímida, mais retraída em relação àquela aguerrida e combativa instituição de outrora, de tantos enfrentamentos e muitas vitórias. No passado, suas constantes lutas em defesa dos direitos do povo, asseguraram-lhe prestígio e importância, nas na contramão de suas ações, deparou-se com inúmeros adversários, detratores e inimigos irreconciliáveis que se opuseram às suas aspirações, mas não conseguiram forças suficientes para detê-la. E assim, enfrentando e vencendo desafios de toda ordem, ela chegou a conquistas importantes que passaram a fazer parte da nossa própria história.

Hoje, depois de tantos anos já transcorridos, não é necessário muito esforço para se perceber o quanto a sociedade brasileira evoluiu. Nos três primeiros séculos após o descobrimento do Brasil, quase todos os fatos ligados ao relacionamento humano, que aconteceram e tiveram influência na transformação deste País, não têm mais para os nossos dias nenhuma aplicabilidade prática, nenhuma prevalência senão como valioso acervo que passou a fazer parte de um contexto histórico. Nem mesmo a maçonaria teria sido capaz de resistir a tantas mudanças sem se modificar. Consciente das mutações politicossociais que a nossa nação passou a sofrer, ela também tratou de evoluir. Teve que mudar as suas formas de luta, adaptando-as aos avanços da sociedade, das leis e da política, até chegar ao que vivemos na atualidade. Agora, os desafios que nos cercam são outros bem maiores e mais complexos, como por exemplo, a falta de infraestrutura dos serviços públicos colocados à disposição da população, a desigualdade social, a violência urbana, o narcotráfico, o tráfico de armas, as calamidades públicas etc. Tais desafios por suas dimensões e impetuosidade têm sido causa do surgimento das mais variadas espécies de crime, mal que se alastra no seio da sociedade brasileira, com requinte de violência cada vez maior, desafiando a lei, a justiça e o poder executivo em todas as suas esferas administrativas (federal, estadual, distrital e municipal).

Como se não bastasse, o território brasileiro passou a ser também alvo de repetidas calamidades públicas, provocadas por alterações climáticas desfavoráveis, cuja força descomunal tem deixado muita gente desamparada e até mesmo sem vida, como aconteceu há alguns meses atrás no Estado de Santa Catarina e agora, recentemente, no norte do País. Em ocasiões como estas a maçonaria dá prova de estar sempre presente com a sua solidariedade e até oferecendo ajuda material e financeira às pessoas atingidas, repetindo um gesto que há séculos se repete de modo peculiar e nato.

Desta feita, num balanço sucinto e comparativo entre o que construiu a maçonaria no passado e o que faz ela atualmente, dá para se chegar pelo menos a uma conclusão segura: a Arte Real, não só no Brasil, mas no mundo inteiro, mudou de tática e de estratégia de ação, porém, suas idéias e convicções permanecem como antes. Aqui, em nosso país, ela não possui mais em suas fileiras tantos vultos como os que teve no passado, mas continua atuante e operativa. Continua respeitada e presente em quase todos os momentos da vida nacional.

Em que pese a maçonaria brasileira aparentar-se para alguns maçons uma entidade quase morta, de outra forma, é ledo engano acreditar que ela esteja cumprindo o seu desiderato de maneira justa e perfeita. Às vezes, para que algo possa vir a ser notado torna-se imprescindível uma manifestação contrária a seu respeito. Um grito de alerta, uma crítica de cunho construtivo, em dado momento, talvez ressoem dentro das lojas maçônicas como o efeito de um salutar remédio capaz de contribuir para que omissões de nossa parte, que são freqüentes, deixem de ocorrer. Como é sabido, a omissão, o comodismo e o desânimo em que se coloca boa parcela dos maçons, são, hoje, um mal de elevadas proporções no seio da maçonaria que a impede de progredir e de alcançar seus mais nobres objetivos.



Diante de tantos problemas sociais próprios dos nossos dias, isto é, que não se assemelham aos do passado, todavia, bem mais numerosos, o conceito da maçonaria brasileira tem tudo para manter-se elevado ante os olhos do mundo profano se nós, maçons, continuarmos sendo os mentores e os verdadeiros articuladores dos ideais de mudança (característica que foi marcante em nossos irmãos do passado), relativamente a fatos cuja realidade não esteja correspondendo aos anseios da sociedade, principalmente, em áreas de atividades relevantes como as que aqui são lembradas, entre outras.

No campo da saúde pública, o sistema de atendimento é algo indigno do ser humano. A imprensa não cessa de denunciar acontecimentos lamentáveis que ocorrem quase todos os dias e que atingem só os mais pobres e necessitados, justamente quem não tem poder de ação para reagir e exigir o que lhe cabe por direito. È um sistema desestruturado e falho. Muitas pessoas que a ele recorrem, por não terem outra alternativa, depois de muita humilhação e constrangimentos, acabam morrendo sem alcançarem atendimento. Isto porque os recursos médicos são escassos, condições de trabalho precárias e medicamentos estão sempre em falta. Cirurgias, mesmo as denominadas de emergentes, não são realizadas a tempo de salvar vidas. E para justificar o caos reinante na saúde pública, seus responsáveis alegam sempre a mesma coisa: falta de recursos orçamentários. Há anos o povo vê a mesma cena se repetir. Mudam-se governantes, mudam-se autoridades públicas e nada muda no referido sistema. Não muda porque nessa história antiga há também um velho jogo de empurra que todos conhecem bem: A União afirma que faz as parte dela, os Estados culpam os Municípios e estes culpam os Estados. Dessa forma, ignorando seus maléficos efeitos, a roleta segue girando sem nenhuma perspectiva de melhora, sem ninguém fazer nada, sem ninguém cobrar. O descaso e a falta de vontade política parece que estão se perpetuando, enquanto que os princípios consagrados em nossa Constituição Federal continuam sendo flagrantemente desrespeitados, apesar de sua clareza: “A saúde é direito de todos e dever do Estado.” O acesso às ações e serviços a ela inerentes é universal e igualitário. Há anos nós, maçons, assistimos a tudo isso e ficamos em silêncio.

No campo dos delitos, embora não tão adequada para os dias atuais, temos uma legislação penal e processual que define os crimes, estabelece as respectivas penas, traça regras processuais, determina as formas de julgamento e a aplicação da pena cabível em cada caso. Por fim, temos ainda um outro instituto jurídico que é a chamada Lei de Execuções Penais. Questionável e discutível porque quando da sua elaboração esqueceu-se de quem erra tem sempre uma dívida a ser resgatada. Sua maior finalidade acabou sendo a devolução do condenado à liberdade o mais rápido possível. Hoje, um condenado a doze anos de reclusão, seja por que crime for, não ficará mais que dois anos na prisão se o seu comportamento for avaliado como bom. Tanto benefício assim torna a pena numa condenação quase nula. Ela perde o seu caráter punitivo e, consequentemente, perde também o poder coibitivo e intimidador que toda lei penal deve ter. Não se sabe por que, ao serem estabelecidos tantos benefícios a favor do réu preso, o legislador não tenha pensado em resguardar também os direitos da sociedade que é quem paga impostos e dá sustentação a todo o aparato estatal. Ele, do mesmo modo, não pensou em se colocar no lugar da vítima ou de seus familiares para poder avaliar melhor a intensidade da dor e dos danos irreparáveis que lhes podem ser causados. Pensou-se apenas no quanto custa para o Estado um longo período de prisão. Para resolver o problema das superlotações de modo prático, imediato e barato, não se pensou na construção de mais presídios. Foi mais fácil a opção pela diminuição do tempo da pena, até para os mais periculosos elementos, tendo-se como premissa as possibilidades de recuperação e de ressocialização do condenado preso como se isso fosse algo possível de se atingir dentro de qualquer presídio como os que temos aqui no Brasil. O resultado é que, grande parte dos que são beneficiados por essa lei volta a delinqüir. Para a sociedade, para o cidadão de bem, fica sempre a sensação de impunidade, de medo e de insegurança. No Brasil há cerca de quinhentos mil condenados presos. Nos Estados Unidos há dois milhões. Por que essa diferença tão grande entre duas nações cujos índices populacionais são mais ou menos iguais? Será que é porque aqui ocorrem menos crimes? Não! É porque os sistemas penal e prisional de lá são muito mais rígidos. Lá, quem erra age sabendo que não escapará das garras da justiça. Aqui, muitos crimes são cometidos porque a lei e a justiça não intimidam ninguém. Lá, é cobrada do condenado a efetiva reparação do dano causado, na medida justa, para não deixar que a sociedade sinta a horrível sensação de impunidade. Lá há mais presídios e menos benefícios. Aqui, as regras para acabar com a impunidade exigem mudanças, principalmente, na lei de execuções penais. Nós, maçons, estamos conscientes de que sem mudanças nada poderá melhorar, mas preferimos ficar em silêncio.

No campo dos tributos, nossa sociedade conta com um sistema arcaico, portanto, superado, demasiadamente oneroso e injusto o que, sem dúvida, são fatores que estimulam a prática da sonegação e da corrupção. Além do mais, impõe ao povo brasileiro uma das mais pesadas cargas tributárias do mundo.

Devido aos múltiplos interesses econômicos, financeiros e políticos ligados a essa questão, as disputas são acirradas em torno dela. No Congresso Nacional, sempre que se fala em reforma tributária, o clima se agita abrindo espaço para discussões que não se esgotam e, sem consenso, a matéria não segue adiante, nem vai a votação alguma. Em meio a esse conturbado jogo de interesse que parece ser sem solução, está a sociedade querendo mudanças, mas a necessária reforma tributária não sai. Nós, maçons, temos consciência de que um novo sistema tributário precisa ser aprovado, mas preferimos ficar em silêncio.

Por fim, o sistema de educação pública, aqui implantado, que vai do ensino fundamental ao superior. Em todo o território nacional, exceto no Distrito Federal, o sistema público de ensino fundamental (do 1º ao 9º ano) está a cargo dos municípios, com os Estados, atualmente compartilhando dessa responsabilidade do 6º ao 9º ano. Esse sistema, tanto na rede provada como na pública, é regido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), um instrumento legal que surgiu tendo como motivação a reforma do ensino, a erradicação do analfabetismo, a inclusão social etc., mas que não correspondeu plenamente aos anseios da sociedade brasileira porque, na tentativa de alcança seus objetivos, quis inovar demais e tais inovações, no geral não estão dando certo. No “rank” mundial de qualidade de ensino, divulgado anualmente, o Brasil vem figurando, há alguns anos, entre as três piores nações em matéria de educação, numa relação de mais de cem países. Além do mais, veio também o Estatuto da Criança e do Adolescente que causou sério agravo às escolas públicas ao tirar delas, de forma ampla e irrestrita, a competência que lhes cabia para impor punições a alunos indisciplinados. Com isso, a escola e o professor de hoje não têm no que se basearem para fazer com que suas orientações sejam cumpridas.

Com a falta de autoridade dos educadores, com a ausência de poder coercitivo para impor e fazer cumprir pelo menos regras disciplinares básicas aumentaram nas escolas os atos de insubordinação, de desrespeito, de provocações, de ameaças e outros até mais graves que são frequentemente noticiados pela imprensa como, por exemplo, a venda e o consumo de drogas dentro do próprio estabelecimento escolar, agressões físicas de aluno contra aluno, de aluno contra professor, de aluno contra funcionário e, vez por outra, até homicídios, coisa que no passado ninguém imaginava que um dia pudesse acontecer.

A maçonaria precisa sair do silêncio e agir em defesa da camada mais pobre da população, pois é ela a maior usuária do sistema público de ensino e trabalhar no sentido de fazer com que a lei em questão seja modificada e, assim, serem eliminados seus pontos falhos. Uma de suas principais metas é a erradicação do analfabetismo e, para alcançar esse objetivo, o atual sistema de ensino chega ao absurdo de orientar as escolas a promoverem a qualquer custo o maior número possível de aprovações até mesmo daqueles alunos que não lograrem aproveitamento suficiente no final do ano letivo. E essa conduta faz com que a referida lei passe a ser o instrumento causador de um dano incalculável ao futuro da criança que passa de ano sem sabe4r, pois tira dela a oportunidade de se desenvolver intelectualmente e de competir pelo alcance de um “status” social mais elevado. Quando conclui o ciclo intermediário, o estudante oriundo de escola pública vai para a faculdade onde ingressa pelo sistema de cotas e depois de alguns anos, sai para o mercado de trabalho sem ter adquirido a aptidão necessária. Desta feita, a Lei de Diretrizes e Bases, que foi instituída tendo como objetivo promover também a inclusão social, o faz de modo errado gerando efeito contrário. Em um futuro não muito distante será ela a responsável pela baixa qualidade profissional de muita gente. Então, os riscos decorrentes de tudo isso, quem irá pagar será a própria sociedade se nada for mudado.

Por parte dos maçons, seria também uma utopia acreditar que as injustiças sociais, hoje em evidência, possam como se num toque de mágica, acabarem, de vez, um dia. Seria igualmente um grave equívoco acreditar que essas mesmas injustiças não venham a aumentar ainda mais ou acabarem espontaneamente, sem que para isso haja uma bandeira de luta como força propulsora direcionada no rumo daquilo que precisa ser mudado.

Nestes longos séculos já passados desde que o Brasil foi descoberto o mundo inteiro se transformou. E esse notável acontecimento nos trouxe uma qualidade de vida bem melhor. Graças às mudanças, a sociedade de hoje é outra e a maçonaria também. A Ordem Maçônica está muito diferente do que foi no passado e isso faz com que alguns maçons a entendam como uma instituição em decadência. Porém, de modo quase imperceptível, o que lhe ocorreu foi a imposição natural de uma necessidade absoluta. A maçonaria teve que se modificar para não morrer. Mudou suas estratégias de ação sem alterar seus princípios basilares e a sua doutrina. Foi sábia ao mudar os rumos do seu comportamento o que não a inviabilizou de continuar escrevendo a sua história, lutando sempre pela liberdade, pela igualdade e pela fraternidade entre os seres humanos. Com sua nova roupagem ela seguiu atraindo adeptos de todas as crenças religiosas. Deixou de colecionar inimigos, de ser perseguida, de ser obrigada a fechar suas portas e de ter que renascer das próprias cinzas como conta a sua história.

Até certo tempo não muito distante a maçonaria foi considerada pelos profanos uma instituição pactuada com o demônio, voltada à prática do mal. Em razão dessa falsa imagem ela chegou a ser fortemente discriminada, principalmente nos meios religiosos, mas hoje, o que se nota é que ela passou a ser compreendida e aceita da forma como realmente é, uma instituição cujo fim principal se constitui na prática desinteressada do bem.

Finalmente, há que se considerar também que a maçonaria ao ser vista e definida de forma bem simples e objetiva, como pessoa jurídica e instituição que é, nada mais representa senão aquilo que ela sempre foi, uma atuante escola de aperfeiçoamento moral, intelectual e espiritual do ser humano, ensinando-o a domar seus impulsos negativos e suas próprias paixões, sendo essência da sua razão de ser o preparo dos seus membros mediante a transmissão de ensinamentos ligados às suas idéias e aspirações, conforme recomendam seus seculares postulados e a sua doutrina universal.

É da inteligência e das mãos de todos os seus iniciados, de modo individual ou coletivo, que depende o êxito da maçonaria em qualquer parte do mundo. O que idealizarem, o que produzirem ou deixarem de fazer, será obra da própria Ordem Maçônica porque ela é o seu obreiro. Na realidade, ela, somos todos nós, maçons.


Fonte: Samaúma – Portal Maçônico – Clique aqui para conferir